   SOBERANA SEDUO
     Penny Jordan
     Ttulo original: A ROYAL BRIDE AT THE SHEIKH'S COMMAND
     8 livro da srie As Leis de Niroli
      
      
      Desde os tempos antigos, a monarquia de Niroli se mantm nas mos da famlia Fierezza. Mas agora a linha de sucesso parece estar chegando ao fim. A ilha est 
dividida. Todas as esperanas se esgotaram... at que um belo prncipe do deserto chega para reivindicar seus direitos...
      Sheik Kadir: Ele  o soberano de um reino no Oriente Mdio, onde sua palavra  a lei... E tambm filho ilegtimo do rei de Niroli, fruto de um trrido romance. 
Kadir  o ltimo Fierezza na linha de sucesso. Ento, ele  obrigado a deixar seu povo do deserto e buscar seu destino... e precisa de uma rainha para reinar ao 
seu lado!
      Natalia Carini: Ela ama sua ilha natal e suas belezas naturais. Ser mulher de Kadir e rainha de Niroli so deveres que ela pode cumprir sem maior dificuldade. 
Afinal, ser esposa de um brbaro  muito mais excitante do que toda a riqueza e o luxo da Corte. O maior desafio de Natalia ser, na verdade, ganhar a confiana 
do homem de sua vida...     
                    
      Digitalizao: Simone Ribeiro
      Reviso: Crysty
      
      
      
      Sempre apaixonados. Sempre orgulhosos.
      A FAMLIA REAL mais rica do mundo. Unida pela paixo, movida pelo desejo.
      
      Compromisso Real
      
      A rea central de Niroli  composta principalmente de vinhedos, que se estendem pelas encostas das montanhas.
      As vinhas da ilha produzem as melhores uvas brancas.
      Cultivadas desde a poca dos romanos nas ladeiras de Cattina Valley e favorecidas pelo sol e pelas chuvas de vero, elas so colhidas para fazer o vinho branco 
seco, que acompanha muito bem os pratos de peixe.
      H tambm os bosques de olivas, os pomares e os famosos laranjais de Cattina. O leo de Niroli  extrado da casca das laranjas e tem um aroma floral, adocicado 
e extico, com poderes de cura especiais:  cicatrizante, rejuvenescedor, tranqilizante, alm de ter propriedades revigorantes. Essas caractersticas o tornaram 
extremamente popular nos tratamentos de relaxamento e rejuvenescimento.
      Os vulces de Niroli j esto extintos, mas as reas que os cercam ainda so importantes fontes de lama vulcnica. O spa Santa Fiera  especializado em banhos 
e mscaras com lama vulcnica para tratamentos de sade e beleza.
      
      
As Leis

1. O governante deve ser um lder moral. Qualquer ato que coloque a famlia real em descrdito excluir o candidato da sucesso ao trono.

2. Nenhum membro da famlia real poder se casar sem o consentimento do soberano. Qualquer unio realizada desta forma resultar na excluso e na perda de honras 
e privilgios.

3. Nenhum casamento ser permitido se os interesses de Niroli forem comprometidos com tal unio.

4. No  permitido ao soberano de Niroli se casar com uma pessoa divorciada.

5. Fica proibido o casamento entre membros da famlia real que possuam laos sanguneos.

6. Fica a cargo do soberano a educao de todos os membros da famlia real, mesmo quando os cuidados gerais forem de responsabilidade dos pais.

7. Nenhum membro da famlia real pode contrair dbitos acima das possibilidades de pagamento sem o consentimento ou aprovao do soberano.

8. Nenhum membro da famlia real pode aceitar herana ou qualquer doao sem o consentimento ou aprovao do soberano.

9. O soberano de Niroli deve dedicar sua vida ao reino. Assim, ele no pode exercer uma profisso.

10. Os membros da famlia real devem residir em Niroli ou em um pas aprovado pelo soberano. Porm, o soberano deve residir em Niroli.
      
      
      
      
      
      
      
      PRLOGO
      
      Ela estava em estado de choque.
      Precisava muito sentar, mas obviamente no podia. Primeiro porque estava nos aposentos reais e, embora fosse uma mulher moderna e ambiciosa, sua ascendncia 
niroliana a alertava de que estava na presena do rei de Niroli.
      E por outro lado... Ela dizia a si mesma, severamente, o rei no admitiria qualquer demonstrao de fraqueza por parte da noiva que escolhera para o seu herdeiro 
recm-descoberto. To recente, na verdade, que ela, a possvel noiva em questo, jurou absoluto segredo sobre o que estava acontecendo.
      Esse era o tipo de acontecimento que funcionaria para os paparazzi tal como sangue na gua para os tubares, e isso poderia ser extremamente arriscado para 
qualquer um que atrapalhasse os planos do rei Giorgio. Tudo o que sabia era que esses planos a incluam como a sdita submissa escolhida para se casar com o prncipe 
Kadir Zafar, o filho ilegtimo "secreto" do rei, porque ela amava a ilha apaixonadamente.
      
      
      CAPTULO UM
      
      Veneza
      Ela podia ter uma ligao profunda com Niroli, mas no havia dvida de que Veneza tinha um lugar especial em seu corao, Natalia admitiu, levantando a mo 
para tentar impedir que o vento continuasse a desarrumar os cachos negros e pesados de seus cabelos. Ela aguardava o txi aqutico que a levaria ao seu destino e 
estava to alheia aos olhares masculinos que atraa que, quando um homem ousado o suficiente para sussurrar Bella, bella de forma sensual ao parar ao seu lado, ela 
no conseguiu se conter e riu. Seus olhos azuis brilhavam  luz do sol. Um pouco de descontrao por um instante j era um alvio para a sua tenso.
      As noites mal dormidas e as preocupaes sobre a deciso tomada a fizeram emagrecer um pouco, e o que estava se perguntando era por que concordara de imediato 
com aquilo.
      O txi aqutico chegou, ela pegou sua maleta e entrou com facilidade e elegncia. Era uma mulher alta, com aproximadamente um metro e oitenta centmetros, 
e lidava com tranqilidade e orgulho com sua altura.
      - Via Veneto. Para o Hotel Balnerio Buchesetti - ela solicitou ao condutor do barco a vapor.
      - Si - ele concordou, olhando-a admirado.
      O trajeto tranqilo para o hotel fez Natalia refletir de forma melanclica sobre a rapidez com que sua vida mudara.
      Invariavelmente, ela acordava todas as manhs com a sensao de que havia embarcado em um trem que, de repente, aumentava a velocidade e a levava para um lugar 
desconhecido.
      Ento por que permitira que isso acontecesse de imediato, j que ningum a forara?
      No? Quando o seu rei pede pessoalmente para voc ajud-lo a salvar o futuro de seu pas, um pas que voc ama, no se pode simplesmente dizer no, ou pode? 
Pelo menos no em se tratando de uma Carini.
      Esse era o problema, desde que dissera sim a lista de motivos para ter declinado crescia a cada dia.
      - Via Veneto - o condutor do barco falou, interrompendo seus pensamentos. - O hotel no est muito distante.  um belo hotel. J esteve l antes?
      - Sim - Natalia respondeu. Pela expresso dele, ela percebeu que fora mais rude do que pretendia. Mas como poderia explicar como se sentia por ter sido obrigada 
a vender o seu adorado spa em Niroli para este hotel em Veneza?
      Verdade, a escolha dos compradores fora dela. Verdade tambm que sabia que os novos proprietrios, Maya e Howard, o transformariam em um hotel de alto padro 
de qualidade, agora que haviam oficialmente acrescentado o spa ao seu grupo de investimentos. Mas isso no diminua o sofrimento pela perda de seu adorvel e amado 
"beb".
      Ento por que desistir to facilmente? Por que desistir da vida que construra com tanta dificuldade para se meter em um casamento arranjado por seu rei? Para 
se tornar uma princesa? Natalia quase soltou uma gargalhada alta. A brancura de seus dentes contrastava com a doura e a maciez de seus lbios vermelhos e provocaram 
um suspiro no condutor que a fez olhar para o lado para esconder o constrangimento.
      Aos 29 anos, j deveria estar acostumada  reao que provocava no sexo oposto.
      Acostumada a essa reao, sim, mas nunca se apaixonara. E agora ento, com a proximidade de seu casamento com o herdeiro recm-descoberto ao trono de Niroli, 
ela estava desistindo dessa chance para sempre, no estava? Afinal de contas, no era to ingnua para acreditar que um casamento arranjado entre dois estranhos 
por um rei que s pensava na segurana de seu reino pudesse, por algum milagre, se tornar um intenso e duradouro caso de amor. Ainda mais porque nunca se apaixonara, 
assim como o interesse de seu futuro marido estava direcionado para o trono de Niroli, e no para ela. Isso poderia dar certo? Ser que era to louca, como estava 
comeando a acreditar, por ter concordado em se casar com o prncipe Kadir para estar ao seu lado e se assegurar de que governaria seu amado pas com sabedoria e 
amor? Se pelo menos houvesse algum com quem pudesse se aconselhar, mas no havia. O rei a proibiu de comentar o assunto com qualquer pessoa.
      O elegante e exclusivo hotel balnerio de seu destino possua desembarcadouro prprio. Ao perceber que se aproximava, Natalia se virou para pegar a bagagem 
e viu um homem que caminhava impaciente-mente numa praa ao lado do hotel e que chamou sua ateno, principalmente por sua altura. Homens mais altos do que ela chamavam 
sua ateno, e este, com certeza, era alto. E ainda com ombros largos e msculos bem definidos para um homem que aparentava estar prximo aos quarenta anos. Os cabelos 
escuros e finos que lhe tocavam o colarinho do palet resplandeciam com a vigorosa sade aparente. A pele era bronzeada e, apesar de estar um pouco distante para 
Natalia perceber a cor de seus olhos, ela podia ver as fortes, perfeitas e precisas feies de seu rosto, maxilar saliente e forte. Era um belo homem, ela admitiu.
      Como que guiado por alguma fora estranha, ele percebeu o interesse dela e parou, virando-se para olhar em sua direo. Ela ainda no conseguia ver a cor dos 
olhos, mas pde perceber que ele era mais bonito do que parecera antes. Deveria ser o sol, e no o fato de estar olhando para ele que a estava deixando tonta. Natalia 
ficou aliviada ao perceber que ele se virou e continuou caminhando. Quando o barco atracou no desembarcadouro, ela admitiu que esse rpido interesse por aquele homem 
no era a coisa mais conveniente para uma mulher que estava prestes a casar com um prncipe. Como poderia se envolver em um casamento se estava se sentindo atrada 
sexualmente por outro homem? Sexualmente atrada? Isso era ridculo. Ela s estava olhando para ele, isso era tudo, e, de qualquer forma, eleja partira. E ela dificilmente 
o veria outra vez.
      
      Quando Natalia chegou ao saguo, Maya correu para abra-la, entusiasmada.
      - Que bom que veio nos ajudar com a transio da propriedade. Ns gostaramos que o processo fosse tranqilo e ainda h tanta coisa para aprendermos sobre 
o seu spa em Niroli! No acreditvamos que voc seria to generosa a ponto de voltar a Veneza assim, rapidamente.
      Natalia retribuiu o abrao sentindo-se um pouco culpada. Ela no poderia,  claro, contar que o motivo de seu retorno a Veneza era porque o rei Giorgio a queria 
longe at que o recm-descoberto herdeiro do trono de Niroli chegasse  ilha. Ento, poderia retornar e seriam apresentados, com toda a pompa e dignidade, ao povo 
de Niroli, junto com o anncio do casamento.
      - Mas por que no posso ficar aqui? - ela perguntou ao rei. - Afinal, tenho que cuidar dos preparativos para o futuro negcio.
      - Voc  uma mulher e no posso permitir que permanea no lugar onde poderia se sentir tentada a revelar o segredo que lhe pedi para guardar.
      Ela ficou tentada, claro, a contradizer aquele desdenhoso comentrio "voc  mulher", mas, conhecendo o rei Giorgio como conhecia, decidiu que aquilo no seria 
conveniente e ento aceitou o pedido, que, na verdade, era uma ordem, para retornar a Veneza e discutir sobre a transferncia dos negcios com Maya e Howard. Eles 
demonstraram interesse em comprar algumas de suas frmulas especiais de leos usadas no spa.
      A verdade era que muitas das atitudes antiquadas do rei freqentemente a irritavam. Nessa ocasio, e talvez em oposio aos seus interesses, ela ficou um pouco 
triste com o rei quando ele chegou com essa inesperada proposta. Eleja havia examinado cada um de seus possveis herdeiros homens e foi forado a rejeit-los. Amando 
Niroli da forma como amava, ela entendia perfeitamente os sentimentos do rei com a descoberta do filho ilegtimo, resultado de um romance h mais de quarenta anos 
com uma princesa rabe. Assim como entendia a ansiedade do rei em oferecer a esse filho criado na Arbia o seu trono e o temor em descobrir que, por sua educao 
ter sido em outro pas, as suas idias de governo no se adaptassem a Niroli. E, sim, se fosse honesta consigo mesma, foi bastante lisonjeiro ter sido escolhida 
pelo rei Giorgio para abrir mo de todos os seus objetivos para se tornar a mulher do futuro rei de Niroli, pois ele vira nela algumas caractersticas que faziam 
lembrar a sua querida falecida esposa, a rainha Sophia.
      Todos sabiam como o povo de Niroli reverenciava e amava a primeira mulher do rei Giorgio e o quanto ela fizera por Niroli. Quando criana, Natalia havia tecido 
devaneios tolos de voltar ao passado para encontrar a rainha Sophia e "ajud-la" com seu trabalho. Agora, estava recebendo a oportunidade real, de poder dar continuidade 
ao trabalho comeado pela rainha Sophia. Naqueles tempos, cheia de euforia s de pensar em fazer parte do futuro de seu pas, ela no pensava que se casar com um 
estranho seria o preo a ser pago por isso. Afinal, nunca se apaixonara e nem pretendia. Ela pensava de forma prtica e convenceu-se de que a idia de um casamento 
entre duas pessoas com um objetivo comum poderia funcionar. Claro que, mesmo assim, tinha algumas dvidas e preocupaes. Casar-se com um futuro rei tambm significava 
dar-lhe herdeiros e, lgico, fazer amor com ele. O rei estava muito animado e no deixou de mencionar que o filho se parecia bastante com ele, e como o rei, mesmo 
em idade avanada, era um homem muito interessante, Natalia esperava que seu futuro marido fosse relativamente atraente.
      E a personalidade? Ela pensou e se preocupou. E se ele fosse o tipo de homem que ela no conseguisse tolerar ou respeitar? Se assim fosse, Natalia no gostaria 
de abandonar seu pas nas mos dele, ou gostaria? No, ela faria o que fosse preciso como sua mulher para compensar seus defeitos. Os que consideravam Natalia uma 
mulher moderna e uma empresria bem-sucedida, claro, ficariam confusos e perplexos quando as notcias estourassem e, de imediato, se perguntariam por que no recusou 
imediatamente o grande plano do rei, fosse ele qual fosse.
      Mas esse era o problema. Superficialmente, ela poderia parecer moderna, mas, no fundo, ela sabia que havia um conflito interno com alguma outra coisa. Essa 
"outra coisa" era o profundo amor e envolvimento que sentia por seu pas, pelo passado, pelo presente, mas principalmente pelo futuro. Ou o futuro que poderia advir 
se o pas estivesse nas mos certas. Porque Niroli, assim como parte do resto do mundo, vivia uma crise entre os valores tradicionais e a modernidade. A ilha e ela, 
mesmo com prs e contras, queriam avanar rumo a um futuro que respeitasse e guardasse suas belezas e recursos naturais, em vez de desperdi-los e destru-los. 
Esse era o eterno conflito com aqueles que no viam problemas em desperdiar as vantagens naturais de Niroli, ou, pior ainda, aqueles que procuravam dilapidar o 
patrimnio da ilha em nome do progresso, transformando-a em uma enorme atrao turstica.
      O que Natalia vislumbrava era algo diferente, uma forma ecolgica e amigvel que pudesse preservar o melhor de suas tradies e, ao mesmo tempo, avanar rumo 
a um futuro prspero. Ela nunca escondeu essas idias de ningum. O compromisso com seu outro trabalho, como farmacutica, fazendo uso de leos e tratamentos holsticos 
no spa que administrava, era bastante conhecido. Contudo, como Natalia Carini, ela poderia fazer muito pouco e sua esfera de influncia era limitada queles que 
compartilhavam a maioria das idias dela. Como rainha de Niroli, estaria em uma posio muito mais abrangente e influente para realizar verdadeiras e valiosas mudanas. 
Certamente, muito mais do que j fizera como neta de um expert e reconhecido vinicultor.
      - Eu ficaria muito satisfeita em lhe oferecer direitos exclusivos sobre algumas frmulas de meus leos especiais - ela disse a Maya, pensando em outra coisa.
      - Ns temos usado algumas amostras que voc gentilmente nos forneceu durante as negociaes da aquisio do spa - o rosto redondo e italiano de Haya iluminou-se. 
- E nossos clientes deliraram com eles. O estimulante muscular que voc criou para homens esportistas foi muito bem recebido e, hoje, temos uma lista enorme de esportistas 
que vm ao nosso spa para us-lo - esquiadores e, principalmente, jogadores de futebol e plo. Howard est em pnico s de pensar que em breve o estoque do leo 
acabar.
      Natalia riu. Ela era receptiva a elogios, quando verdadeiros e feitos com conhecimento sobre o assunto, alm de ficar feliz em saber que as pessoas respondiam 
favoravelmente a seus leos teraputicos.
      - Foi por isso que aceitei a sugesto de Howard quando ele me telefonou e trouxe um novo estoque comigo - ela informou a Maya. Como sabia que provavelmente 
no poderia dar continuidade ao negcio quando se casasse com o prncipe Kadir, uma coisa que Natalia pretendia era manter um espao onde pudesse continuar a usar 
seu "nariz" como perfumista. No para criar novos perfumes, mas para usar os ingredientes dos perfumes com fins teraputicos. Assim como a msica e as cores j eram 
reconhecidas como tendo propriedades curativas, cada vez mais as pessoas comeavam a aceitar que os aromas tambm poderiam conter o poder da cura fsica e mental 
quando misturados e usados apropriadamente. Um de seus sonhos era criar uma linha de essncias que tivesse essa propriedade e, agora, acrescentara a isso o sonho 
de fazer uso de sua nova posio como rainha de Niroli para angariar fundos e distribu-los a pessoas carentes.
      - Voc jantar conosco mais tarde, eu espero, mas por enquanto pensamos em deix-la livre para aproveitar Veneza. Depois, podemos nos sentar para acertarmos 
a compra das frmulas de seus leos.
      - Isso seria perfeito para mim - Natalia concordou.
      Ela riu quando Maya a abraou outra vez e disse emocionada:
      - Oh, Natalia, eu estou to feliz por voc ter feito isso por ns.
      Enquanto retribua o abrao de Maya, Natalia se deu conta de que gostaria de ter um tempo livre para si, pois havia um lugar em particular que gostaria de 
visitar.
      
      Natalia j viera a Veneza muitas vezes e no hesitou em pedir ao condutor do txi aqutico para parar, de modo que pudesse caminhar at a pequena fbrica de 
cristais que descobrira h muitos anos, em sua primeira visita. O que a atraa nessa visita?
      Ao cruzar a praa que vira mais cedo, percebeu que fazia o mesmo percurso do homem que avistou do txi ao chegar. Mas o que o trouxera de volta aos seus pensamentos? 
Algum pensamento ridculo de que poderia encontr-lo outra vez, depois do olhar indiferente que lhe lanara, quando estava as vsperas de se casar? Fantasiar sobre 
homens altos e bonitos vislumbrados na rua no era uma tolice que costumava fazer nem quando era adolescente. Por que estaria fazendo isso agora?
      Isso  Veneza para voc, Natalia disse a si mesma, de forma melanclica. A cidade pregava peas na imaginao e nos olhos de vrias maneiras.
      
      Era mais tarde do que planejara quando deixou a pequena fbrica e, ao olhar para o relgio, se deu conta de que seria o tempo exato para chegar ao hotel e 
se juntar a Maya e Howard para o drinque antes do jantar.
      Contudo, quando chegou ao hotel percebeu que eles estavam preocupados com algo mais alm do seu atraso. Maya estava sentada em um dos grandes sofs de couro 
da sala, com a mo direita enfaixada e com o brao em uma tipia.
      - Ela tropeou, derrubou uma tigela de vidro e cortou a mo - Howard explicou.
      - E agora estamos metidos em uma grande encrenca - Maya suspirou tristemente. - Recebemos um telefonema mais cedo, antes de eu cair, de um cliente inesperado 
que est em uma escala no aeroporto vindo para c e gostaria de marcar uma hora para hoje  noite. Ele  jogador de plo e tem uma contuso antiga que de vez em 
quando o incomoda. Ele pediu a massagem que voc me ensinou, Natalia, aquela que atinge os msculos mais profundos e que voc desenvolveu para contuses esportivas.
      Natalia concordou balanando a cabea. A massagem em questo era uma das especialidades de seu spa.
      - Quando ele esteve aqui no ms passado, eu a recomendei a ele - Maya continuou -, e ele disse que lhe fez muito bem. Parece que nos ltimos dias a antiga 
contuso piorou. Claro que eu o agendei, e agora ele est esperando pela massagem daqui a meia hora. Ele reservou uma de nossas melhores sutes e  um cliente que 
no podemos desapontar. E agora eu no posso fazer a massagem. E Gina, a nica massagista que poderia me substituir, est de frias. Eu nem consigo lhe dizer o quanto 
estou chateada comigo por ter feito uma coisa to estpida como quebrar aquela tigela miservel.
      Natalia se solidarizou com ela. Ela poderia lhe dizer o quanto se pareciam quando se tratava de trabalho e que entendia perfeitamente como se sentia.
      -Eu no poderia fazer a massagem para voc? - ela ofereceu impulsivamente.
      - Voc faria? - Imediatamente Maya sorriu aliviada. -Ns espervamos que voc oferecesse - ela admitiu honestamente. - Natalia, voc tem certeza de que no 
quer se associar a ns? Voc poderia ser um trunfo no negcio.
      - No me tente, pois eu aceitaria, essa seria a reao imediata de Natalia, mas sorriu e sacudiu a cabea. A explicao que deu ao casal por ter vendido o 
spa era que pretendia se dedicar  perfumaria. Outra mentira, mas necessria, segundo o rei Giorgio.
      -- Qual  a hora agendada para ele? - ela perguntou.
      - Voc tem vinte minutos. Eu j trouxe um uniforme para voc. O nome dele  Leon Perez. Ele pediu que a massagem fosse feita em sua sute, mas no h nada 
de mais nisso, como voc ver. Ns realmente oferecemos essa facilidade. Contudo, se por alguma razo ele se comportar de forma inconveniente,  s apertar a campainha 
ao lado da cama. Ns instalamos em todos os quartos, s para garantir. Pretendemos manter uma lista com os nomes daqueles clientes que confundem os nossos servios 
para evitarmos que a coisa se repita.
      -  uma boa precauo - Natalia concordou. - Eu fiz a mesma coisa, apesar de felizmente nunca ter precisado us-la.
      - Quando voc terminar, ns vamos tomar um drinque e depois jantar para continuarmos a discusso sobre os negcios - Maya disse, entregando o uniforme do hotel 
para Natalia.
      O uniforme era um jaleco simples de linho, gola alta, corte justo e branco. O tecido era grosso e comprido o suficiente para no revelar o que se usava por 
baixo. Natalia percebeu e aprovou. Ela gostou de saber que
      Maya respeitava seus funcionrios e no lhes oferecia um uniforme inadequado. S tinha tempo para tomar uma ducha, prender os cabelos e vestir-se. O uniforme 
era um pouco mais curto do que gostaria e levemente apertado, mas esse era um problema que as pessoas altas e com curvas definidas estavam acostumadas a enfrentar. 
Ela pegou tudo o que Maya lhe dera e que precisaria antes de ir para a sute do hspede.
      
      Natalia j havia feito massagens em clientes milhares de vezes e por isso no havia razo para estar com aquela sensao de aperto no estmago ao tocar a campainha, 
enquanto aguardava autorizao para entrar.
      A porta da sute comeou a se abrir. O homem estava de p dentro do quarto, vestindo o roupo do hotel.
      Ao olhar para ele, Natalia comeou a piscar os olhos. Era ele. Leon Perez era o homem que vira mais cedo, atravessando a praa. Com certeza era ele, no havia 
dvida. Seus sentidos lhe diziam claramente. Seus sentidos! Que direito eles tinham de se intrometer em um assunto estritamente profissional? Isso era perigoso. 
E o que era pior, muito pior, foi que tudo aquilo que dissera a si mesma, de que no havia necessidade de se sentir ansiosa, foi por gua abaixo s de olhar para 
aqueles olhos verdes cor de jade.
      Seu corao disparou. Ela se sentiu como se estivesse se afogando nas profundezas do olhar dele, como se estivesse sendo sugada por alguma fora sensual que 
vinha sabe-se l de onde para possu-la. No meio de todo aquele turbilho de sentimentos, ela s conseguia pensar em uma coisa. No quanto o desejava.
      
      
      CAPTULO DOIS
      
      O que era isso... essa invaso de desejo sexual vulcnico tomando conta de Natalia e deixando vir  tona sensaes h muito contidas?
      Saia! Saia agora, uma voz interior exigia. Voc no pode permitir isso. Vire-se e v embora... porque se no o fizer...
      - Voc agendou uma massagem?
      Muito tarde... muito tarde. Por que ser que ela no fez o que a voz interior mandara?, ela se perguntava ao entrar trmula no cmodo quase sem iluminao 
que era a sala de espera da sute. Seu "nariz", sempre to sensvel, s vezes at demais, comeou a funcionar em capacidade mxima. Ela estava sendo inundada por 
uma avalanche de aromas, a decorao nova exalava cheiro de tinta fresca misturado ao odor do carpete. O cheiro dos lrios no hall de entrada se sobrepunha ao aroma 
do perfume especialmente criado por ela e que usava com freqncia. Um vaso com rosas fazia lembrar o leo de almscar que criara misturando uvas maduras e vinhos 
fermentados. Normalmente isso lhe provocaria prazer e a acalmaria, mas, nesse momento, talvez distorcido pelo cheiro de seu prprio medo, ela lutava contra a sensualidade 
incomum que lhe invadia.
      Mas o aroma mais poderoso era o dele. Imagens surgiam em sua cabea: calor, o cheiro de algo desconhecido trazido pelo ar denso e o cheiro do poder fsico 
e mental de um homem. Uma vitalidade que se incorporava a algo to ntimo, que Natalia se sentia como se estivesse fisicamente presa a ele. Algo muito perigoso e 
indesejvel estava acontecendo com ela, Natalia admitiu. Sensaes arrebatadoras percorriam seu corpo, forando-a a se render.
      - Por aqui.
      Com muito esforo, Natalia tentou ignorar o que estava sentindo. Por um momento, ela o desejou. E da? Aquilo provavelmente era uma reao automtica diante 
do reconhecimento da proximidade do fim de seus anos no planejados de celibato, que chegariam ao fim com o seu casamento. Provavelmente no havia nada de mais nesse 
repentino e extraordinrio desejo. Assim como aquela tonteira, a sensao de desmaio que percorria seu corpo como um precioso leo morno. Tudo isso deveria ter sido 
causado pela inclinao da cabea que teve de fazer para olhar para ele, j que no estava no mesmo nvel de seus olhos, como acontecia com a maioria dos homens.
      O rei Giorgio no lhe dera qualquer informao de como era fisicamente seu filho ilegtimo. Apenas demonstrara estar muito orgulhoso por ele ser "obviamente" 
seu filho. Tudo que ela sabia a respeito dele era que tinha 40 anos, nunca se casara, e que havia sido criado como um futuro sheik. Mas, ao lhe ser oferecido o trono 
de Niroli, ele passara o reinado de Hadiya para o meio-irmo mais novo.
      J haviam se passado alguns dias desde que Natalia concordara com a proposta do rei Giorgio, quando fora difcil no imaginar um homem atarracado, gorducho 
e usando um monte de ouro, principalmente nos dentes, apesar da bvia admirao do rei por ele.
      Em contrapartida, este homem tinha mais que um metro e oitenta centmetros de altura, era musculoso e sem nenhum quilo a mais. Bem, em relao  dentio, 
a pequena lasca em um dos dentes centrais indicava que, apesar da excelente forma e cor, os dentes eram naturais. Seria maravilhoso danar com um homem alto, fisicamente 
compatvel com ela. S para danar, que tal...? Ela ficou tensa diante dos pensamentos. Era a inclinao que precisava fazer para olhar para ele que a fazia reagir 
daquela forma, ela disse a si mesma enfaticamente. Afinal, com aquele ngulo, o fluxo de sangue para a cabea diminua, e s isso seria o suficiente para induzir... 
induzir o qu? As imagens sensuais que a faziam se sentir como se estivesse nua?
      Para um homem to alto e forte, ele se movia com graa e facilidade, alm de bastante desenvoltura, andando na sua frente e deixando-a segui-lo como uma das 
mulheres de um harm seguiria o mestre. De onde tirara essa idia? Esse homem era sul-americano, Maya a informara.
      
      Maya e Howard resolveram transformar o interior de seu pequeno palcio em um hotel spa, deixando uma atmosfera holstica e minimalista. O conforto luxuoso 
dos quartos e a decorao vinham da qualidade natural dos mveis e dos tecidos usados. Todos os quartos possuam maas para massagem, alm das enormes camas.
      - Voc solicitou uma das massagens especiais do spa para as costas e o pescoo - Natalia confirmou, ao se aproximarem da maa.
      - Sim. E, deixe-me avis-la,  melhor voc saber o que est fazendo.
      Ele parecia hostil em relao a ela, coisa a que Natalia no estava acostumada, nem como mulher nem como profissional. Mas, por incrvel que parea, ao invs 
disso diminuir sua inquietao, s serviu para deix-la mais excitada ainda. Era to imatura assim? Desejando o que no podia ter s por ser proibido? Isso era ridculo. 
Ela no desejava aquele tipo de homem.
      Talvez no fosse o melhor momento para contar a ele que ela era a responsvel pela criao daquele tipo de massagem, Natalia admitiu, mesmo que a atitude dele 
a encorajasse a isso. Ela sabia, sem modstia, que era uma excelente massagista. Tinha o dom e o instinto desde a infncia, o poder de curar e acalmar com o toque 
das mos. Se estivesse fazendo isso em seu spa, estaria conversando com o cliente, descrevendo os procedimentos e vantagens de sua mistura de leos para melhor satisfazer 
as suas necessidades. Mas no tinha a menor inteno de fazer o mesmo com esse homem. Natalia no sabia por que seu instinto lhe dizia que devia se proteger dele.
      Voc no sabe? Uma voz interior lhe provocava. Olhe para ele, talvez descubra. Nenhuma mulher com sangue circulando nas veias ficaria imune  masculinidade 
dele, principalmente uma que tivesse concordado com um casamento arranjado e sem amor.
      Seria isso? Seria aquela reao inesperada e no desejada somente uma maneira impulsiva de se rebelar contra sua prpria deciso, um aviso de seus sentidos 
de que estaria abrindo mo de inmeras coisas? Ela nunca foi promscua, por que ento seus sentidos reagiam de maneira to nervosa diante de um homem desconhecido? 
Um desejo fsico? Ela no estava fazendo tal coisa! Sim, voc est, sua conscincia respondeu sabiamente. De forma determinada, Natalia reagiu para subjug-la. Ela 
estava ali para trabalhar, nada mais.
      Ele agora estava de costas para ela e retirava o roupo, deixando-o cair no cho. Natalia prendeu a respirao. E se estivesse nu por baixo do roupo? Ele 
era o tipo de homem confiante que faria tal coisa. Mas no estava. Ela no sabia se estava satisfeita ou desapontada ao ver que ele trazia uma pequena toalha enrolada 
na cintura. Sob o ponto de vista de uma massagista, isso era muito melhor que uma cueca. Demonstrava que ele estava acostumado com o procedimento. Quantas outras 
mulheres se sentiriam como ela nesse momento? Ser que ele olhou para elas com a indiferena que a olhava agora, ou elas teriam percebido algum desejo oculto naqueles 
olhos verde-escuros? Sem saber como, ela foi invadida por uma onda de cimes, como um tornado. Isso fez suas mos ficarem trmulas enquanto aguardava que ele se 
deitasse de costas na maa.
      Natalia percebeu que prendia a respirao, e no era de se admirar, quando viu o modo como aqueles msculos espetaculares se moviam de forma to masculina. 
As coxas eram a prova disso. E como ele era um jogador de plo, possua todos os requisitos musculares para tal atividade. Certamente tambm era bem-sucedido e rico, 
isso podia ser percebido pelo luxuoso, porm discreto, relgio que usava e pelo fato de estar hospedado naquela sute. A pele morena reluzia na luz do quarto, movendo-se 
delicadamente sobre os msculos. Ele se movia como um guepardo, suave e lentamente. Se Natalia no soubesse que ele era sul-americano, provavelmente o classificaria 
como italiano, apesar de haver alguma coisa na estrutura mscula de seu rosto que aludisse a uma herana cultural que ela no conseguia definir, algo estranho... 
e instigante para uma mulher. Ignore isso, ela logo se advertiu, tentando se concentrar em outros aspectos do cliente. Seus modos, com certeza, eram europeus, ainda 
que ele no o fosse. Por que ele era sul-americano? De forma irritante, por alguma razo, algo perturbava seu subconsciente, tentando lhe dizer alguma coisa, mesmo 
que no soubesse o qu. Mais por hbito do que qualquer outra coisa, ela se virou enquanto ele se ajeitava na maa.
      Duas coisas importantes nessa massagem em particular eram a msica e a luz que faziam parte dela. Maya a ensinara a manusear o sistema de som e luz, ambos 
muito similares ao do seu spa, apesar de ela preferir abrir as janelas, sempre que possvel, e ter os sons da natureza como os nicos suplementos  massagem.
      Ela derramou uma pequena quantidade de leo na tigela e o aqueceu, depois testou a temperatura no dorso de sua mo.
      - Essa massagem age nas tenses e nos bloqueios das estruturas musculares mais profundas - ela explicou calmamente. - Voc pode achar que ela aumenta os movimentos 
involuntrios de um ou outro msculo, de acordo com o nvel de tenso que apresentam, mas  completamente normal.
      O som emitido por ele indicava impacincia mais do que qualquer palavra poderia demonstrar, alm do desejo de que ela se mantivesse o mais distante possvel, 
sem falar. Bem, isso com certeza serviu para ela. Natalia comeou a deslizar as mos sobre a pele dele, massageando o tnus e a textura dos msculos, respirando 
de forma uniforme e lenta  medida que se concentrava em seu trabalho. Muita coisa podia ser absorvida nessa comunicao silenciosa entre toque e pele, muitos segredos 
poderiam ser percebidos. Ele, por exemplo, estava tenso com o toque dela, apesar de tentar disfarar com a respirao firme. Em algum momento de sua vida ele sofreu 
algum trauma em sua coxa esquerda, provavelmente um tombo de cavalo. Plo outra vez? No havia nenhuma contuso bvia, mas ela podia perceber o tremor muscular que 
lhe indicava o trauma oculto. Ela automaticamente reagiu  necessidade muscular, comprimindo de forma lenta inicialmente, para em seguida ganhar confiana e poder 
massagear com mais fora e intensidade.
      Os cabelos dele, finos e mais escuros que os dela deslizavam delicadamente entre seus dedos enquanto trabalhava nas costas e se estendia at o pescoo para 
aliviar as tenses locais. Ela j estava trabalhando h pelo menos 15 minutos e seus msculos comeavam a dar sinais de cansao. Tudo o que usava por baixo do jaleco 
era um short curto, uma deciso prtica, ela pensou, mas da qual agora se arrependera diante dos movimentos necessrios  massagem e que deixavam seus bicos dos 
seios arrepiados em funo do contato com o tecido do jaleco, pelo menos ela acreditava ser este o motivo.
      Ela nunca havia visto ou tocado um homem com um corpo to perfeito, queria continuar massageando a pele dele para sempre. Gostava do sentimento de prazer e 
encantamento, enquanto o cheiro da pele aquecida e massageada era o prprio cheiro de sensualidade e do sexo destilados com exatido. O aroma tomava conta de seu 
"nariz" como se estivesse completamente possuda por ele, provocando fraqueza muscular e desconforto no estmago. Natalia era invadida por uma sensao de calor 
e desejo, afetando-a como o lcool afetava os bbados, deixando-a lnguida e tirando-lhe toda capacidade de raciocnio ou pensamento lgico. As pontas de seus dedos 
percorriam a extenso da coluna dele, tocando cada vrtebra delicadamente. No era de se estranhar que ele fosse to alto e arrogante. Ela acabara de chegar ao limite 
onde a toalha estava enrolada em seus quadris. Como a solicitao dele era uma massagem superior na parte das costas e do pescoo, no havia necessidade de toc-lo 
naquela parte do corpo. Nenhuma necessidade alm de sua vontade de se entregar aos prprios desejos. Todos os corpos possuam fraquezas e resistncias, seu lado 
bom e ruim, mas esse corpo fora moldado de forma to perfeita que o prazer de toc-lo tinha o efeito de uma droga sobre ela. Automaticamente, Natalia usou a ponta 
dos dedos para afastar a toalha e viu as pequenas reentrncias de cada lado da coluna, logo acima das ndegas cobertas. Ela respirou lentamente e fechou os olhos, 
acariciando e circundado, usufruindo o prazer que a invadia.
      - Que droga ...?
      A raiva com que ele amaldioou e rejeitou suas carcias espontneas fez com que ela recuasse, tremendo e com o rosto em chamas diante de sua falta de profissionalismo. 
Ela ficou completamente imvel e transfigurada quando ele se afastou dela e comeou a se virar. Ao completar o movimento, a toalha caiu e permitiu que Natalia visse, 
no importando o que a maldita raiva tentasse esconder, que a verdadeira evidncia do efeito de seu toque estava l, uma forte ereo inadvertidamente revelada.
      Natalia no conseguia desviar o olhar. No era a primeira vez que presenciava uma ereo em um cliente, claro.  uma reao natural masculina diante  do toque 
feminino. Mas era a primeira vez que reagia, dessa forma. A massagem era uma forma de terapia e cura, ela no usava isso como recurso para se excitar. O certo seria 
se desculpar, mas o que poderia dizer? Que havia se deliciado ao toc-lo e queria mais? Dificilmente. Ela se abaixou, fingindo pegar o roupo para entreg-lo para 
ele. Pelo canto do olho, ela pde ver que ele estava se levantando da maa. Ser que reclamaria com Maya e Howard?
      Isso seria extremamente embaraoso, pelo relacionamento profissional que mantinha com eles. Determinada a no olhar, ela estendeu o roupo para ele, mas alguma 
coisa mais poderosa que ela estava no comando, porque, mesmo contra toda a lgica, estendeu o brao e passou a ponta dos dedos pela fila de plos que s a levaria 
a um lugar.
      Ela o sentiu contrair os msculos do abdome, reagindo ao toque.
      - Olhe - ela o ouviu dizer sarcasticamente. - Eu no quero... - E, de repente, ele jogou as pernas para o lado, ficou de p e se aproximou dela do jeito que 
estava.
      Ela ficou completamente atordoada quando ele acariciou sua pele por cima do jaleco e deslizou a mo pela perna  mostra, depois massageou as curvas das ndegas 
e a sacudiu levemente, fazendo-a tremer involuntariamente. Ela podia sentir a prpria excitao, com o odor e a umidade to familiares. Natalia achou que j havia 
ultrapassado a hiper-sexualidade dos anos de adolescncia, quando estava descobrindo o corpo e seus desejos. Naquela poca, estava a salvo no refgio da abstinncia 
opcional, onde no experimentar os desejos sexuais era uma escolha preferencial. Mas agora percebia que aquela segurana lhe era arrancada, deixando-a nua e exposta 
com o que estava sentindo. E o que estava sentindo...
      Natalia lutava para reprimir esse desejo inconcebvel e inaceitvel, mas j podia sentir a presso de um orgasmo. Como se um boto tivesse sido ligado e regulasse 
o modo como pensava e sentia. De repente, ela no era mais aquela Natalia Carini sensvel, respeitvel e prestes a se casar com o prncipe Kadir, mas uma mulher 
paga, completamente hedonista e sensual, instintivamente, ela se esforou para conter a reao do corpo, no para rejeitar seu orgasmo, mas, em vez disso, sem nenhuma 
vergonha, essa outra Natalia desejava ardentemente prolongar aquele prazer o mximo que pudesse. Os seus sentidos eram dominados por tudo o que dissesse respeito 
a Leon Perez, de modo que ficava indefesa. Ela no tinha experincia para saber como poderia interromper o que estava sentindo, simplesmente porque nunca se sentira 
daquela forma. Desejou no apenas toc-lo, mas prov-lo tambm, ouvir sua respirao nos ltimos segundos antes de perder o controle, provoc-lo e tortur-lo no 
desejo de possu-la. Natalia queria sentir o cheiro da ereo dele misturado ao seu prprio aroma, criando assim uma nova fragrncia que seria exclusivamente deles, 
to potente e viva na sua forma como se tivessem criado uma nova vida.
      Mais que tudo, Natalia queria senti-lo dentro de si, sua carne recebendo-o e aprisionando-o. Seus msculos pulsando prazerosamente junto com ele, extraindo 
dele a essncia da vida de forma suave e delicada, como fazia quando extraa a essncia de uma flor para criar um perfume. O que mais a confundia era que a mulher 
que se orgulhava de seu comedimento pudesse no apenas sentir essa profunda paixo, mas entregar-se a ela. Por qu? Porque estava prestes a se casar? Por no ter 
feito sexo durante todo esse tempo? Por ele, o homem em si?
      Das trs opes a que mais lhe agradava era a segunda, mas se recusava a aceit-la. No poderia ser, ela dizia a si mesma com veemncia, sabendo que no poderia 
aceitar o que aquilo tudo significava.
      - Quem  voc? O que  voc...? - ela o ouvia perguntar insistentemente, enquanto arrancava seu jaleco. - Eu preciso perguntar? Ah, no, no responda - ele 
mesmo respondeu. - Porque ns j sabemos a resposta. Voc  o que o seu sexo sabe muito bem como ser, uma fraude, cheia de promessas e truques, todas as coisas para 
todos os homens, enquanto isso lhe der prazer. - Havia um forte desprezo na voz dele misturado com amargura e raiva, mas Natalia no prestava ateno ao que ele 
falava, estava completamente perdida na onda de prazer que sentia. Seus gemidos suaves e roucos harmonizavam-se com toda aquela intimidade e se misturavam  msica 
que j fazia parte do contexto. Seus pensamentos nunca chegaram nem perto de evocar uma satisfao to intensa como aquela que esse homem poderia lhe proporcionar. 
Parecia correto desej-lo daquela forma. Eles estavam de p, encostados um ao outro, a presso entre suas pernas aumentava a cada suspiro que dava. Natalia se curvou 
para frente, sentindo o aroma da pele dele, e depois, pressionando os lbios contra seu trax, comeou a acarici-lo.
      - No!
      A severidade da rejeio dele a deixou assustada e com o corao disparado.
      - Voc pode ter tirado dos homens com quem dividiu o seu corpo o direito de eles de controlarem o prprio prazer, mas no far o mesmo comigo - ele advertiu. 
- De onde venho, o homem comanda e a mulher segue, no o contrrio.  o homem que toma e a mulher que d. - As mos dele percorriam o corpo de Natalia e lhe acariciavam 
lentamente os seios, fazendo-a respirar de forma irregular, como quem reprime um desejo.
      Os seios estavam to inchados com a excitao que os bicos lhe provocavam quase uma dor fsica. Quando ele tocou um deles, esfregando a palma da mo sobre 
ele, ela gritou de desejo.
      - Sua pele tem a cor dourada do pr-do-sol, atraindo a admirao e o toque masculino para depois escraviz-lo. Mas no serei escravizado.
      Natalia mal conseguia se concentrar nas palavras emitidas por ele, estava em chamas com a intensidade de seus prprios desejos. Ela colocou as mos em volta 
do rosto dele, trazendo-o para junto de seu corpo, guiada pelo desejo de t-lo beijando sua pele. Ela quase gritou de desapontamento quando ele a recusou.
      Em seguida, para seu espanto, ele fez uma coisa que ela nunca poderia imaginar que um homem fizesse: pegou-a no colo e levou-a para a cama. Natalia era alta 
e tinha curvas voluptuosas, mas ainda assim ele a carregou como se fosse pequena e leve. Era ridculo se sentir to excitada e intimidada com uma atitude masculina 
to simples.
      - Agora - ele disse, enquanto a colocava na cama, deitando-se sobre ela. - Agora, eu terei de voc o que est louca para me dar, mesmo que minha inteligncia 
me diga que seria impossvel mostrar alguma coisa nova diante de todos os outros homens que j devem ter passado por voc.
      Ele a estava insultando, mas Natalia estava muito excitada para registrar o que ele dizia ou explicar que sua experincia ntima com homens no passava de 
dois, enquanto ele deveria contabilizar um nmero muito maior. Afinal de contas, ele era um homem adulto, prximo dos 40 anos, ela suspeitava. Um homem adulto muito 
sensual, ao passo que ela era uma mulher que havia mantido o celibato por tempo demasiado. Em vez disso, ela se curvou, obedecendo as mos masculinas que a conduziam 
e que percorriam seu corpo. E, ento, enquanto ela gemia e se movia freneticamente contra o corpo dele, ele a descobria com o toque, acariciando compartimentos secretos 
de seu sexo como um experiente perfumista retira a essncia mais preciosa do corao de uma rosa. De alguma maneira, era como se ele a estivesse desconstruindo, 
com seu toque, para, em seguida, reconstru-la para satisfazer os prprios desejos, uma alquimia sensual que utilizava o lado obscuro de sua sensualidade para transmutar 
a carne de Natalia e criar uma nova criatura s sua. Os sentidos de Natalia revelavam em pequenas nuanas sua excitao, os lbios inchados de seu sexo se abriam 
ansiosos para lhe oferecer a suavidade do prazer que sentia. S o toque da ponta dos dedos dele arrancava dela uma doce agonia e um xtase que tentava, desde o incio, 
conter.
      - No - ele ordenou com firmeza. - No feche os olhos.
      Com obedincia, ela o encarou, no escondendo nada e permitindo que ele compartilhasse com ela tudo o que vivenciava. Nunca, em tempo algum.
           Natalia conhecera a sensao de ser possuda. Isso a consumia completamente, deixando sobrar apenas a casca sexual do que era anteriormente.
      Seu olhar, a meio palmo, revelava o prazer que sentia. Ela o observava abrir suas pernas e posicionar-se entre elas.
               Ele pegou um preservativo de algum lugar. O barulho da embalagem se rasgando a deixou mais tranqila, por mais que uma parte oculta de Natalia lamentas 
se a perda do contato pele a pele, carne com carne, da intimidade com ele.
      Na primeira penetrao, Natalia soube o que tentou negar o tempo todo: que esse homem era to perfeito fisicamente para ela que cada centmetro de seu corpo 
respondia com fervor a esse reconhecimento. Seu corpo se abriu mido e suave para ele, ainda sentindo o prazer que lhe proporcionara. Ela o prendeu com fora junto 
a si, satisfazendo-se com seu tamanho e intensidade. Pequenos tremores anteriores ao orgasmo percorreram seu corpo, enquanto levantava os quadris e prendia aquele 
corpo forte junto ao seu, tentando traz-lo o mximo possvel para dentro de si. Era possvel ouvir os batimentos cardacos de ambos, sacudindo seus corpos. Ela 
podia sentir o calor da respirao dele e o cheiro dos corpos excitados que se misturavam. A cada movimento, ele a penetrava mais profundamente, e ela, com o movimento 
contrrio, o encorajava a continuar, at no terem mais aonde chegar, somente no pice do prazer que alcanariam juntos.
      
      Natalia suspirou de forma trmula, chocada e descrente. Ela ouviu o barulho do chuveiro, saiu da cama, colocou as roupas de baixo e vestiu o jaleco meio sem 
jeito. O que havia feito? Ningum nunca saberia disso. Ningum! A raiva de si mesma estava contida na garganta. Como poderia ter sido to impulsiva e imprudente? 
E para qu? Para fazer sexo com um estranho? Como aquilo parecia humilhante. Ia contra tudo o que acreditava sobre respeito prprio.
      O chuveiro ainda estava ligado. Ela precisava sair de l antes que ele voltasse. J estava vestida e, sem motivo aparente para ficar, por que ainda se demorava?
      V, v agora, ela ordenava a si mesma. Antes que ele volte e lhe humilhe ainda mais. Ainda mais? Poderia haver coisa mais humilhante que as palavras proferidas 
por ele durante os ltimos momentos de prazer?
      - Tudo bem -- ele lhe disse laconicamente ao se afastar dela e levantar-se da cama. - Voc j teve o que queria, agora v.
      O que ela queria! Ele tambm a queria... no ? Claro que queria. Mas foi ela quem comeou tudo, no foi? E, com certeza, isso era uma coisa que nunca havia 
feito antes.
      Ela abriu a porta que dava para o corredor, ficou aliviada ao ver que no havia ningum, e correu para o elevador que a levaria para o seu quarto, no andar 
de baixo.
      Graas a Deus Maya lhe dissera que ele partiria logo pela manh. O que acontecera entre eles seria um segredo que carregaria pelo resto da vida. Por seu prprio 
bem e de Niroli. E graas tambm ao som da embalagem do preservativo que ainda ecoava em seus ouvidos. Pelo menos isso significava que a nica repercusso de seu 
comportamento irresponsvel seriam suas prprias lembranas.
      Como poderia no sentir a conscincia pesada? Afinal de contas, ela s estava se sentindo culpada pela vergonha de ter agido contra os seus preceitos morais. 
Havia tambm a conscincia adicional de sua futura responsabilidade com o papel que estava prestes a assumir, o de mulher do futuro rei de Niroli. Como poderia ter 
sucumbido a tudo o que considerava certo, apropriado e responsvel para transgredir o cdigo do acordo que automaticamente assumia ao concordar em se casar com o 
prncipe Kadir? Como noiva real, era de extrema importncia que fosse vista acima de qualquer repreenso "moral". Ela sabia que o rei Giorgio, sem sombra de dvidas, 
fizera uma discreta investigao sobre sua vida sexual pregressa e que se assegurara de seu longo perodo de celibato.
      Ela no devia se prender ao que acontecera, deveria esquecer tudo isso. Ou teria de ir at o rei Giorgio e lhe dizer que no poderia se casar com o prncipe 
Kadir. A emoo que a invadiu deixou-a horrorizada. E se fosse livre? Isso no significaria que ele... esse Leon Perez a quisesse de novo. No, o que estava pensando 
era loucura. E, alm disso, tinha de pensar em sua obrigao, no seu compromisso j firmado. Sua cabea estava inventando coisas, seu futuro estava decidido, e no 
seria um futuro permeado por lembranas nostlgicas de um homem que deixou bem claro como se sentia em relao a ela.
      Como algum que se afoga, Natalia se agarrou  lembrana de que estava comprometida com o prncipe Kadir. O que fizera foi terrvel, espantoso... uma forma 
de loucura. Ela precisava esquecer e aceitar aquilo como um tipo de pnico pr-nupcial. Algo que j fazia parte do passado, enquanto se concentrava no futuro j 
planejado.
      
      
      CAPTULO TRS
      
      Kadir olhou assustado para a cama vazia. Ela se fora. Melhor assim. A msica colocada por ela e a penumbra do ambiente eram lembranas que evocavam o que acabara 
de acontecer, mas nada se comparava ao cheiro dela, que parecia estar misturado ao seu prprio, apesar do banho. Era uma mistura inusitada do calor ardente da sensualidade 
com algo que no conseguia nomear, e a forma como isso se manifestava nele o deixava furioso.
      O que fazia perdendo tempo pensando nela? Aquela mulher no era nada para ele. Nada, apenas uma mulher sexualmente oportunista. Ele no teria se aproximado 
dela se no tivesse prometido a sua me, no leito de morte, que terminaria o relacionamento que mantinha com sua amante. Isso resultar em um perodo de celibato 
bem maior do que estava acostumado. Esse era o nico motivo que justificava o ocorrido, a nica explicao.
      Afinal, isso no combinava com o papel que em breve assumiria, tanto o de rei como o de homem casado. Fazer sexo com uma estranha, uma massagista. Pelo amor 
de Deus. O que aconteceu com seu auto-controle? Ele controlava com facilidade o seu apetite sexual. Ela nem era o seu tipo, ele gostava das mulheres pequenas, no 
mulheres altas e com curvas sensuais. Mesmo assim se deixou levar pelo instinto.
      Bem, com certeza isso no aconteceria outra vez.
      Kadir no pretendia ser o tipo de soberano que finge ter certa postura "moral" em pblico enquanto se entrega aos hbitos mais libidinosos livremente, em particular. 
A promiscuidade sexual nunca o seduziu. Houve mulheres, sim, principalmente nos anos de competio profissional nos circuitos de plo, mas essas j estavam longe 
no momento. Uma sucesso discreta de amantes passou por sua cama, e Zahra foi a ltima.
      Ele a conhecia h muitos anos, mas s se tornaram amantes quando o marido dela morreu. Por esse ponto de vista, isso havia sido um arranjo prtico e conveniente. 
Kadir gostava desses arranjos, sentimento no era um requisito que gostaria de trazer para os seus relacionamentos, e uma amante supersentimental era tudo o que 
no desejava. E agora, certamente, tambm no precisava de uma nova mulher sentimental.
      Foi o estado final de sua me e alguns negcios financeiros que o trouxeram a Veneza, e estava satisfeito por ter usado o pseudnimo dos tempos de plo para 
fazer a reserva nesse hotel.
      Pelo o que sabia do rei Giorgio, seu pai deve ter usufrudo de uma vida sexual bastante intensa, mas mantinha regras restritas a respeito da conduta dos membros 
da famlia real de Niroli, principalmente de seu sucessor.
      Kadir franziu a testa. Ser que ela descobriu quem ele era e estava tentando fazer uso dessa informao? Ele seria forado a defender o seu comportamento diante 
do pai e demonstrar que tudo no passou de uma experincia desagradvel. Como se colocara em uma situao dessas? E com aquela mulher. A verdadeira anttese do que 
gostaria de ver em uma mulher, especialmente as que porventura viessem a dividir a cama com ele.
      Felizmente tinha algum preservativo  mo, seno... Seno teria parado, no havia dvida. Como poderia? Tinha responsabilidades, e no apenas consigo mesmo, 
mas com a mulher com quem se casaria. Ser que estava to certo de que poderia parar? Kadir resmungou, enquanto tentava conter a voz interior.
      Agora era tarde demais para maldizer sua vinda para Veneza. Sua me teria amado a cidade.
      -  como um milagre para as pessoas como ns, que nasceram no deserto, viver na cidade das guas - ela lhe dissera certa vez.
      Kadir se entristeceu com a lembrana. Achava que conhecia a me, acreditou ter compartilhado com ela momentos prximos e especiais, mas estava se enganando, 
assim como ela o enganara. A ltima coisa que esperava naqueles dias que antecederam a sua morte causada pela doena fatal, que a consumiu durante todo o vero, 
era ter ouvido dela que o homem que julgara ser seu pai no o era. Que ele era fruto de um relacionamento de juventude que tivera com um europeu. E no qualquer 
europeu, mas o rei Giorgio de
      Niroli, o patriarca do que se julgava ser a famlia real mais rica da Europa. No que o dinheiro tivesse alguma importncia para ele. Kadir transformou a herana 
que recebera de seu av materno em um imprio bilionrio alcanado aos 30 anos, graas s suas habilidades financeiras e empresariais. Ele no precisava da riqueza 
do rei Giorgio, assim como tambm no precisava do ttulo que herdaria dele. O que realmente precisava era descobrir se esse novo personagem revelado por sua me 
combinava melhor com ele do que aquele que pensara ser seu pai at ento. E se no combinassem? E se sentisse to estranho e afastado quanto se sentia em relao 
ao sheik de Hadiya? Ento ele simplesmente teria de conviver com isso. Afinal, j tinha 40 anos, no era mais um menino inexperiente. Niroli lhe daria a oportunidade 
de crescer de vrias formas, coisa que no poderia fazer em Hadiya. Alm do mais, agora era muito tarde para mudar de idia. Ele se comprometera com o irmo, Ahmed, 
a apoi-lo para que se tornasse o novo sheik de Hadiya, assim como prometera ao pai desconhecido que seria o prximo rei de Niroli.
      Mas assim como a conseqncia das revelaes de sua me poderiam lhe favorecer, Kadir no conseguia superar a sensao de traio por ela ter mantido uma coisa 
to importante em segredo.
      Ele tentava entend-la e perdo-la, dizendo a si mesmo que ela j estava prometida em casamento quando conheceu o rei Giorgio. Sua me havia feito uma parada 
em Niroli no caminho de volta para Hadiya. De acordo com ela, fora uma paixo avassaladora e, ao mesmo tempo, breve. E o casamento com o marido prometido aconteceu 
antes que se desse conta de que estava esperando um filho do rei Giorgio.
      - Ento por que contar agora? - ele perguntava, com certa irritao. - J que no julgou necessrio faz-lo antes...
      - Antes, eu tinha medo de sua reao - ela lhe dissera. - Todos acreditavam que voc era o sheik herdeiro, e eu no poderia suportar a responsabilidade de 
lhe privar disso. Mas agora... estou quase morrendo, meu filho, e tenho lhe observado nessas ltimas semanas desde que seu tio morreu. Por mais que voc tenha demonstrado 
estar pronto para assumir suas responsabilidades perante Hadiya, eu percebo que voc no o faz de corao. Sempre lamentou a falta de liberdade e as restries que 
nosso pequeno reinado lhe impunha. Ao passo que seu irmo demonstra satisfao em contabilizar a receita de petrleo dos poos de Hadiya e em ouvir os conselheiros. 
Voc no sobreviveria sob o jugo de outro soberano.
      - Nada do que lhe peo  para mim, Kadir.
      Foi nessa poca que ela lhe mostrou o pequeno amuleto de ouro, gasto e esmaecido e com antigos escritos gravados nele.
      - O rei Giorgio me deu isso. Eu quero que voc o devolva em mos. Sempre mantive interesse pelo mundo dele durante todos esses anos, e compreendo o desespero 
do rei por no ter um herdeiro direto para assumir o trono. Voc  filho dele, Kadir. O trono de
      Niroli  o seu lugar por direito, no aqui em Hadiya onde eu sempre soube que voc no se sentia em casa. Ah, voc bem que tentou, mas eu percebia sua impacincia 
com os costumes, voc sempre desejou outro estilo de vida. Aprendeu as sutilezas dos negcios aqui do Oriente, mas eu percebia em seus olhos a impacincia com as 
coisas e que ansiava a objetividade europia.
      - Se com isso voc quer dizer que eu me ressinto em pagar grandes quantias para homens ricos enquanto o povo pobre de nosso mundo continua sem nada, sim, eu 
me incomodo - ele concordou.
      Ela morreu trs dias aps ter feito a confisso, e Kadir sabia que seu gentil irmo ficara chocado por ele no ter derramado uma lgrima por ela.
      Mulheres! Que homem em plena sanidade confiaria nelas? Ele conheceu a hipocrisia desde muito cedo. Kadir tinha 18 anos quando descobriu que a noiva escolhida 
para ele por sua famlia estava longe de ser a virgem inocente que julgavam e que mantinha um caso com um primo casado havia um ano. No seria justo dizer que tal 
descoberta partira seu corao. Ele rompeu o noivado. Afinal, era um casamento arranjado, mas isso lhe ensinou a no confiar no sexo oposto. Elas mentiam quando 
lhes convinha, com seus beijos e declaraes de amor e, o mais importante, mentiam com relao  fidelidade. O que mais o deixava furioso agora, contudo, era que, 
reconhecendo o que havia feito, ele tambm se deixou levar facilmente pelos desejos fsicos com a mulher que acabara de sair. Por qu? Por qu? Porque o desejo de 
possu-la era maior que qualquer outra coisa. Aquilo era besteira, pensava ele, negando a voz interior. Afinal, foi ela quem o provocou. E foi ele quem cedeu, com 
tanto desejo por ela que no conseguiu parar. Um desvio de conduta isso era tudo... nada mais... para ser esquecido, como se nada tivesse acontecido.
      Ele olhou para o amuleto que segurava. O objeto estava aquecido pela mo de sua me quando ela o entregou e, algumas vezes, quando o segurava em suas mos 
e fechava os olhos, quase se convencia de que ainda podia sentir aquele calor. Quando criana, achava que sua me era a mulher mais maravilhosa e bela do mundo, 
e ela o adorava. Mas mesmo o adorando omitira a verdade sobre sua paternidade.
      Quando ela lhe entregou o amuleto, provavelmente tinha em mente alguma fantasia romntica de que ele chegaria a Niroli descalo e arrasado depois de uma solitria 
e rdua odissia no percurso para reivindicar seu lugar de direito, e que seria recebido por seu pai com os olhos marejados pela alegria e satisfao. Mas a vida 
moderna no era bem assim. Longe disso. Ele usou os canais diplomticos para informar ao rei Giorgio que precisavam se encontrar pessoalmente.
      O resultado foi uma profuso de cartas e telefonemas entremeados por e-mails concisos dos conselheiros do rei e o pedido de um teste de DNA para confirmar 
a reivindicao de sua me, tudo isso sem trocar uma palavra com o rei Giorgio.
      Cinicamente, Kadir estava inclinado a suspeitar de que fora o resultado do teste de DNA que provocara a oferta formal do trono de Niroli feita pelo rei Giorgio.
      Outras negociaes se seguiram at que seu irmo desejasse substitu-lo para governar Hadiya. Durante as negociaes, ele se perguntou se o povo de Niroli 
estava propenso a aceit-lo como soberano absoluto. A resposta do rei Giorgio a sua preocupao foi a sugesto de um casamento diplomtico com uma mulher de Niroli 
que pudesse ser bem recebida como rainha pelo povo.
      Historicamente, na sociedade rabe no havia o direito do primognito. O homem traava o seu prprio caminho dentro de sua famlia, por suas prprias habilidades 
e fora, e se casava onde pudesse obter o melhor negcio em termos de benefcios oriundos de tal casamento. Portanto, Kadir no via problema algum em sua futura 
mulher ser a neta do vinicultor mais antigo de Niroli. O que ela estava trazendo para o casamento era imensamente mais valioso do que qualquer sangue azul poderia 
proporcionar.
      Com tudo pronto para voar direto de Hadiya para Niroli no fim da semana, uma pendncia com a conta bancria de sua me em um banco de Veneza e alguns negcios 
a serem resolvidos, ele decidiu fazer uma escala na cidade. Com isso, resolveu se hospedar naquele hotel, que sabia ser o preferido dos melhores esportistas.
      Na manh seguinte estaria voando em um jato particular para Niroli. O rei fora categrico em no querer que seu povo soubesse da relao deles at que ele 
mesmo o apresentasse como seu filho e futuro rei de Niroli, seguido do imediato anncio de seu casamento com Natalia Carini. Sendo o homem que era, Kadir achou que 
faria sentido chegar antes do dia marcado para ver como seu pai reagiria. Do que havia ouvido sobre o rei Giorgio, ele era um soberano autocrtico que se recusava 
a delegar poderes ou permitir que seu pas sofresse qualquer modificao.
      Kadir tinha a inteno de fazer o mesmo, mas se ele seria o soberano, iria governar segundo os seus prprios preceitos.
      Ele olhou para a porta. Para aonde ela teria ido? Para a cama de outro homem? Ele fechou a mo em torno do amuleto, resmungando com raiva e autodepreciao 
ao se virar para a cama e pegar o laptop. Tinha coisas mais importantes a fazer do que ficar pensando naquela oferecida promscua que nunca mais veria.
      
      Enquanto caminhava pela praa, Natalia estava to distrada que no se deu conta dos olhares admirados dos transeuntes. A garoa do dia anterior se transformou 
em neve que caa como gotas de diamante em seus cabelos escuros, deixando-os mais encaracolados. Ela no estava caminhando na esperana de encontrar Leon Perez e 
no se sentiu constrangida ao verificar os registros para se certificar de que ele partira naquela manh. No, ela estava caminhando pela praa porque precisava 
de ar puro, algum tempo para aceitar o que fizera. A nica coisa boa de todo o incidente, se  que se poderia chamar o que acontecera de incidente, era o fato de 
felizmente Leon Perez ter usado preservativo. Portanto, ela no precisava se preocupar com futuras conseqncias do que haviam feito. Ela se sentia como se estivesse 
doente s de pensar no que poderia ter acontecido se ele no tivesse se precavido. Como pudera estar to descontrolada a ponto de correr esse risco? Por sua prpria 
sade, pela confiana que o rei Giorgio depositou nela, pelo direito de seu futuro marido em querer uma mulher livre de qualquer contaminao proveniente de outro 
relacionamento.
      Ela avistou um caf a sua frente e mergulhou no calor do lugar apinhado de gente. O seu celular comeou a tocar.
      - O rei quer que voc retorne imediatamente para Niroli - ela ouviu a voz do ministro-chefe do rei inform-la secamente.
      - Imediatamente? Mas por qu? O meu vo est marcado para depois de amanh e no sei se conseguirei...
      - Ns providenciamos um vo particular para voc. Tudo o que precisa fazer  se apresentar no balco especial do aeroporto.
      - Mas por qu? O que est acontecendo? -- Natalia comeou a questionar, mas era tarde demais, o ministro j havia desligado.
      Ainda nevava l fora. A neve e o cu escuro a fizeram tremer.
      O que estaria por trs da convocao urgente?
      Teria o novo herdeiro mudado de idia em relao ao casamento? Nesse caso, como se sentiria? Natalia se surpreendeu mais tarde ao ser escoltada at o vo particular 
que a levaria para Niroli.
      Ela sentiu o balano suave do moderno jato quando ele comeou a correr na pista, e foi tomada por uma sensao de pnico, mas se controlou rapidamente. Era 
isso, estava de volta, no apenas para casa, mas para enfrentar o que lhe esperava ao encontrar seu futuro marido.
      
      
      CAPTULO QUATRO
      
      - Mas isso  ridculo -Natalia argumentou com o motorista do carro que a aguardava na pista de pouso assim que o avio tocou o solo. - Eu no quero ir para 
o palcio, quero ir para casa.
      - Sinto muito, mas a ordem que recebi era para lev-la para o palcio - o motorista informou grosseiramente.
      Natalia ficou em silncio e olhou para fora da janela. Isso era loucura. O que ser que estava acontecendo? Por que no havia um oficial do palcio esperando 
por ela para explicar-lhe tudo?
      O tempo estava mudando, o cu de azul-claro agora estava escuro como se fosse noite. O carro seguia em velocidade pela estrada que ligava o palcio  via principal 
do aeroporto.
      Acima deles, Natalia podia ver as luzes da cidade misturadas  vista do palcio real.
      O motorista fez um retorno inesperado, evitando a cidade e pegando-a desprevenida. Ele seguiu por uma estrada estreita que levava aos fundos do palcio.
      Ento, Natalia pensou de forma irnica, enquanto sua presena era exigida e aparentemente to importante a ponto de ser trazida em um jatinho particular, sua 
pessoa no era to importante j que iria entrar por um acesso que mais parecia uma entrada de servio to estreita que ela prendeu a respirao com medo de que 
o carro fosse grande demais para passar por ali. Alm do porto havia um ptio mido e escuro, as janelas que davam para ele estavam fechadas e o clima era hostil 
e pouco receptivo.
      O motorista estacionou o carro e desceu para abrir a porta. Apesar de sua irritao, Natalia ainda tentou sorrir educadamente, afinal, ele apenas cumpria ordens.
      Essa atitude suspeita e misteriosa era bem o estilo do rei Giorgio conduzir sua corte, ela pensou melancolicamente. O velho rei adorava jogar as pessoas umas 
contra as outras, e sempre fazia isso, Natalia reconheceu, mas admitiu que comeava a sentir certa compaixo por ele  medida que cada um dos candidatos a herdeiro 
do trono foram rejeitados. Ele podia ser arrogante e orgulhoso, mas estava velho, e ela suspeitava que o rei temesse o que poderia acontecer a Niroli se morresse 
sem nomear seu sucessor. Mesmo com todos os seus erros, e ela admitia que no eram poucos, ningum poderia duvidar do amor que sentia por seu pas. Um amor que ela 
tambm compartilhava, como ele bem sabia. Natalia pensou novamente na vez em que ele lhe disse que ela o fazia lembrar um pouco sua primeira mulher, a rainha Sophia, 
e que possua a mesma elegncia e vigor. Natalia se emocionou com o elogio, ciente do quanto sua primeira mulher era querida pelo povo de Niroli e por aqueles que 
a conheciam mais de perto. Ela suspeitava que fora em parte, por sua semelhana com a rainha Sophia que o rei Giorgio inicialmente concebeu a idia do casamento 
dela com o filho recm-descoberto.
      Uma porta se abriu e um homem se aproximou. Por causa da pouca iluminao, ela s percebeu que era o ministro quando este chegou mais perto.
      - Qual o motivo de tanta urgncia e segredo? O que est acontecendo? - ela perguntou.
      - Venha por aqui. Eu explicarei tudo enquanto lhe acompanho at o seu apartamento.
      Natalia, que estava quase entrando no palcio, parou e se virou para olhar para ele.
      - Meu o qu?
      - J que voc est prestes a ser anunciada como noiva oficial do sucessor do rei Giorgio,  conveniente que deva ter o seu prprio apartamento no palcio.
      - Mas eu tenho minha prpria casa...
      - Isso no  mais conveniente. A condessa Ficino foi escolhida para ser a sua dama de companhia. Ela ser responsvel pela organizao do dia-a-dia de sua 
agenda, e por qualquer problema com o seu vesturio e obrigaes oficiais. Ela tambm estar disponvel para esclarecer qualquer dvida sobre o protocolo real.  
uma pena que o prncipe Kadir tenha resolvido chegar antes do dia marcado.
      - O prncipe Kadir est aqui?
      - Exatamente. Parece que sua alteza estava to ansioso para conhecer o pai e cumprir a promessa que fizera  me em seu leito de morte que resolveu chegar 
antes.                                                                   
      Em qualquer outra situao, o tom de desaprovao na voz do ministro a teria incomodado. A corte funcionava dentro de uma rotina organizada e rgida que estava 
sculos desatualizada. Qualquer sinal de espontaneidade no significava apenas um desapontamento, mas efetivamente um transtorno, e o prncipe logo perceberia a 
falha que cometera ao transgredir os arranjos acordados. Nesse momento, ela tambm se sentia irritada com a forma como sua vida mudara de direo repentinamente.
      - O rei teme que no seja possvel manter a presena de seu filho em segredo por muito tempo e, por esse motivo, antecipou o anncio oficial do parentesco 
deles e do noivado de vocs. A assessoria do palcio j comunicou  imprensa que em breve ser feito um pronunciamento muito importante. Esse foi um dos motivos 
para que voc fosse trazida s pressas para o palcio. Homens j esto trabalhando na praa em frente ao palcio para decor-la para o discurso no qual o prncipe 
Kadir ser apresentado ao povo.
      - Amanh?
      O ministro fez uma pausa para lhe indicar o longo corredor decorado com retratos sombrios dos ltimos ministros-chefes de Estado de Niroli. No final, um lance 
de escada levava ao andar superior.
      A cabea de Natalia estava cheia de dvidas, mas ela sabia que no havia chances de obter respostas das idosas cortess que agora a acompanhavam. Elas estavam 
muito presas s tradies de suas funes para relaxar e contar a ela como era o seu futuro marido e o seu tipo de carter.
      No que ela fosse esperar muito para descobrir por si s, mas foi o que soube ao ser entregue aos "cuidados" da condessa, que a acompanhou at chegarem a uma 
porta dupla.
      - Voc dever se apresentar  Cmara Real amanh pela manh, exatamente s 11h. De l, no salo anexo ao balco, voc assistir  apresentao oficial que 
o rei far do prncipe Kadir ao povo de Niroli. Ento esperar exatos 15 minutos antes de se juntar a eles no balco, onde ser apresentada ao prncipe. Esse ser 
o momento em que recebero a bno do rei pelo noivado e pelo casamento vindouro. - Ela abriu a porta do "apartamento" para que Natalia entrasse no enorme salo 
que se apresentou diante delas. O corao de Natalia ficou apertado ao observar a decorao antiquada do aposento. Trs jovens moas a aguardavam com as cabeas 
arqueadas e se curvaram quando a condessa as apresentou como camareiras particulares.
      Natalia estava acostumada a lidar com a prpria equipe, e agradeceu carinhosamente a cada uma delas, perguntando seus nomes de batismo. Ela percebeu que a 
condessa no aprovou a informalidade, mas Natalia ignorou a desaprovao. J era tempo de introduzir ares de vida moderna e banir algumas restries da corte.
      - J  tarde e voc provavelmente deseja dormir para estar preparada amanh, mas primeiro  meu dever inform-la que o rei providenciou um novo guarda-roupa 
para melhor atender s obrigaes do papel que desempenhar, e eu dei instrues as suas camareiras sobre o traje que dever usar no anncio oficial do seu noivado. 
Alm disso, eu devo chegar antes para acompanh-la at a Cmara Real e garantir que tudo esteja em perfeita ordem. Eu devo avis-la que o rei lhe entregar algumas 
jias reais que pertenceram a rainha Sophia e que dever us-las enquanto estiver no balco. Voc as usar, claro, durante a recepo formal que se seguir ao anncio 
no balco, mas elas devem ser devolvidas para serem recolocadas em local seguro.
      Um novo guarda-roupa, jias reais. Natalia deveria esperar por isso, mas por algum motivo nem pensou no assunto, ela admitiu. Tudo parecia to ridculo e fora 
de moda. J havia visto a segunda mulher do rei usando algumas jias e tremeu de horror s de pensar que tambm usaria algo parecido. Isso era contra tudo o que 
acreditava. Natalia achava que deveria se preocupar com os menos afortunados e no servir de mostrurio para tanta riqueza. Um de seus sonhos era, com o tempo, conseguir 
influenciar seu marido o suficiente para persuadi-lo a dividir pelo menos um pouco da lendria fortuna da famlia real no apenas com o povo de Niroli, mas com todas 
as pessoas necessitadas ao redor do mundo. Uma instituio beneficente que explorasse meios de desenvolver melhor a assistncia mdica para todos era apenas uma 
das coisas que gostaria de implantar.
      - Eu vou deix-la agora.
      A condessa fez com que ela se sentisse indo para a guilhotina, Natalia percebeu com tristeza, e talvez, de algum modo, estivesse. Afinal, seu casamento com 
o prncipe Kadir marcaria uma brusca mudana entre sua antiga vida e a nova, e isso certamente acabaria com a liberdade sexual de uma mulher solteira nesses tempos 
modernos. Por que estava pensando nisso agora? No por causa da noite anterior, Natalia esperava.
      - Se desejar alguma coisa para comer, talvez um livro para ler, as camareiras particulares estaro  inteira disposio.
      O que havia de errado em ir at a cidade e conseguir por ela mesma? Natalia se perguntou, ao agradecer  condessa. Pelo menos, at agora, ela ainda era Natalia 
Carini e livre para usufruir desse anonimato.
      As trs jovens camareiras pareciam aliviadas ao serem dispensadas, ela pensou alguns minutos depois de liber-las em seu novo apartamento.
      Apesar de muito bonito, o quarto no combinava com ela. Natalia gostava de coisas modernas e naturais. Ela era criteriosa com o que comparava, escolhendo apenas 
produtos "ecolgicos", e ainda mais criteriosa com os recursos, certificando-se de que os produtores no fossem explorados.
      Uma enorme cama em estilo rococ francs estava coberta com a mesma seda usada nas cortinas das janelas, dois pares de porta mais adiante se encontravam abertos. 
Uma delas dava acesso a um enorme banheiro com uma gigantesca banheira, enquanto a outra se abria para um quarto de vestir, o qual, Natalia descobriu ao entrar, 
tambm se interligava com o banheiro.
      Algum j havia desfeito a bagagem que trouxera de Veneza. No armrio se encontravam as roupas que o rei mandara comprar para ela. Tentando controlar a horrvel 
sensao que invadia seu corao, ela respirou fundo e abriu o primeiro par de portas do armrio. E ento as fechou depois de olhar horrorizada para a fila de trajes 
de noite esquisitos. Ela sentiu saudades de suas roupas macias, simples, feitas com tecidos naturais e em cores que combinavam com ela.
      Natalia no poderia ofender o rei se recusando a vestir o que ele havia lhe oferecido como presente, apesar de ter certeza de que o vesturio fora escolhido 
pensando mais na dignidade e imagem da Coroa do que em seu prprio estilo.
      Aquelas roupas com cortes esquisitos e decoradas com contas certamente sintetizavam tudo o que gostaria profundamente de ver mudado na monarquia, e que se 
refletia na relao com o povo de Niroli. Hoje, o verdadeiro respeito certamente provinha de ter uma monarquia que pudesse ser admirada pelo modo como seus membros 
viviam e se preocupavam com o povo, e no por ser temida e invejada pelo poder, status e riqueza que ostentava.
      
      
      CAPTULO CINCO
      
      - MEU FILHO... - o rei Giorgio murmurou emocionado ao estender a mo para coloc-la sobre o ombro de Kadir, e sacudiu a cabea maravilhado. - At agora no 
consigo acreditar nisso.  como um milagre - sua expresso mudou, tornando-se severa. - Sua me no tinha o direito de esconder sua existncia de mim. Mas o que 
so as mulheres... criaturas encantadoras, mas no so confiveis e nem agem de forma lgica.  uma justificativa infeliz para os homens, na minha opinio, que se 
deixam governar por elas. Mas voc, eu posso ver, no  esse tipo de homem, Kadir. Kadir podia perceber a emoo do velho rei, ao v-lo pestanejar e sacudir a cabea.
      - E pensar que durante todo esse tempo em que estive procurando algum do meu sangue e adequado para governar Niroli depois de mim, voc estava l, o melhor 
e mais adequado de todos. Meu filho... meu filho - ele repetiu, segurando com firmeza o brao de Kadir. - Sua me nos causou um grande prejuzo ao no revelar a 
sua verdadeira paternidade antes.
      A amargura e tristeza de seu pai refletiam a sua prpria, Kadir admitiu. Nessa e em muitas outras coisas. Ele estava comeando a descobrir que ele e seu verdadeiro 
pai eram muito parecidos. Contudo, desde que chegara ao palcio, antes do previsto - no que isso tivesse a ver com a mulher que provocara os seus desejos em Veneza 
-, ele lutava com as lembranas de sua me, uma jovem virgem a caminho do casamento sendo seduzida pelo poderoso rei da ilha. Essas no eram as lembranas que gostaria 
de ter de sua me, e ento, assim como as indesejveis recordaes de Veneza, Kadir se recusou firmemente a deixar que elas tomassem conta de sua cabea.
      - Sua me poderia t-lo privado de um futuro verdadeiramente grandioso se no tivesse revelado sua paternidade - o rei estava se vangloriando.
      - H os que acham que se tornar governante de Hadiya seja um grande futuro - Kadir salientou.
      - Hadiya... - o rei sacudiu os ombros de forma desdenhosa. - Como podem comparar o governo de alguns quilmetros quadrados de deserto com a soberania de Niroli?
      -  o que se esconde por baixo do deserto de Hadiya que lhe confere toda a riqueza - Kadir lhe informou secamente. - E h muitas naes supostamente ricas 
do Oriente que sacrificariam suas belas paisagens pelas areias de Hadiya... e por seu petrleo.
      Kadir podia perceber que o rei no estava gostando do comentrio, mas no pretendia deixar que seu recm-descoberto pai o intimidasse. O ltimo sheik, seu 
pai, fora um poderoso e autocrtico governante, e um dos que comandava e realmente exigia obedincia de todos ao seu redor. Enquanto seu irmo mais novo aceitava 
isso com facilidade e bom humor, Kadir sempre lutou contra isso, assim como tambm lutou para estabelecer sua prpria independncia. E no pretendia deixar que outro 
autocrata achasse que poderia govern-lo agora, nessa altura de sua vida, mesmo que esse autocrata fosse seu verdadeiro pai.
      - Aqui em Niroli, quando uma coroa  colocada sobre sua cabea, voc est herdando mais do que uma mera fortuna - o rei informou. - Est herdando seu verdadeiro 
direito de nascena.
      Aos 40 anos, eleja estava maduro o suficiente para no se deixar influenciar por uma chantagem emocional grosseira, mas havia um brilho suspeito nos olhos 
de seu pai e um pequeno tremor na voz que ameaavam minar a sua posio defensiva.
      Apesar da aparncia arrogante, do desdm e da forma desrespeitosa com aqueles que considerava ser de status inferior ao seu, principalmente o sexo feminino, 
escondia-se no fundo uma vulnerabilidade emocional. Kadir no se intimidava facilmente com as emoes alheias. Passara muitos anos negando e ocultando as prprias 
emoes para sentir compaixo pela vulnerabilidade dos outros. A verdade era que passara muitos anos aprendendo a se proteger, mantendo-se " parte" da sociedade 
para abandonar sua estratgia de defesa justamente agora.
      Era do interesse do rei Giorgio faz-lo se sentir  vontade, confortvel e desejado. Isso no significava que o velho rei realmente se sentisse como um pai 
em relao a ele. Pelo mesmo motivo, Kadir no se permitiria acreditar agora que, simplesmente por ser filho do rei Giorgio, o povo de Niroli o aceitaria com a mesma 
emoo e prazer com que aceitavam o rei. Ou que ele prprio sentisse o mesmo senso de comprometimento e integrao que seu pai sentia por seu pas. Afinal, no fora 
criado ali, por enquanto, no sentia nenhuma proximidade com tudo aquilo.
      O que realmente possua, contudo, era uma forte crena de que, aqui em Niroli, poderia colocar em prtica as habilidades de governante, diplomata e lder do 
jeito que bem entendesse. Sua esperana era que Niroli lhe desse a oportunidade de se expandir politicamente nas culturas mais importantes do mundo, coisa que no 
era possvel em Hadiya. E, ao fazer isso, poderia encontrar a paz interior e a descoberta de si mesmo que, at ento, haviam sido uma iluso.
      - Nosso povo j est se amontoando na praa. Eles lhe daro as boas-vindas, Kadir, porque eu, o rei do povo, tambm o estou recebendo como futuro rei deles. 
E mais ainda, claro, quando souberem que voc se casar com Natalia Carini. Eu a escolhi pessoalmente para ser a sua noiva. Ela vem de uma antiga famlia de Niroli, 
muito respeitada na ilha. Natalia vive e respira por Niroli; ela o ensinar tudo o que precisa saber sobre o povo. Ela  prxima deles e os compreende.
      O quadro que seu pai estava pintando de sua futura noiva no era exatamente um quadro que despertasse o desejo de um homem, Kadir pensou cinicamente. No que 
o fato de, porventura, desej-la ou no importasse, contanto que ela lhe desse um filho. Essas eram as regras do jogo e ele fora criado sabendo que precisavam ser 
jogadas, alm de no se preocupar com o fato de no achar Natalia Carini atraente fisicamente. Era o que deveria ser aceito por um homem que concordara em fazer 
um casamento arranjado. Contudo, achava uma omisso por parte de seu pai no t-los apresentado antes do pronunciamento formal do noivado.
      - Eu no sei quanto tempo ainda me resta, e, por essa razo, e nenhuma outra, decidi que seu casamento com Natalia ocorrer em dez dias - o rei informou. - 
Os preparativos j esto em andamento.
      Kadir franziu o cenho. Ele podia ter sido criado em uma famlia real e realmente esperava chegar ao trono, mas nunca tivera uma parte to importante de sua 
vida organizada de maneira to autocrtica, sem ser consultado de antemo. Em Hadiya, ele prprio teria escolhido sua noiva.
      - O povo no achar suspeito o fato de corrermos para efetuar uma unio to rapidamente?
      - Se voc chama de suspeito o fato de acharem que voc j poderia t-la engravidado, ento certamente isso seria excelente. Eu conheo o meu povo. No h nada 
que os far abra-lo mais avidamente como futuro rei do que o fato de voc ter um filho com uma mulher de Niroli.
      Primeiro o casamento e agora a paternidade. Kadir franziu as sobrancelhas.
      - Eu ainda tenho certas obrigaes para resolver em Hadiya, coisas ligadas  transferncia de poder para o meu irmo e que requerem a minha presena.
      - Isso  fcil de se resolver. Assim que se casarem voc e Natalia podem viajar para Hadiya em lua-de-mel.
      A conversa foi interrompida quando o ministro, chefe entrou na sala apressadamente.
      - Sua alteza -- ele se dirigiu ao rei. - Est quase na hora. O povo j est concentrado e o prncipe Kadir precisa vestir o manto para ser proclamado herdeiro 
oficial.
      
      - Voc realmente no espera que eu vista isso - Natalia olhou com repugnncia para o espartilho de cetim com pesadas jias penduradas. - Isso mais parece um 
instrumento de tortura do que um acessrio de vesturio.
      - O rei pediu que voc o usasse.  uma cpia do traje usado por sua primeira mulher em seu prprio noivado - a condessa informou a Natalia severamente. - Ele 
acredita que, ao lhe ver vestida assim, o povo se lembrar do amor que sentia pela rainha Sophia e transferir esse amor para voc.
      E, claro, o rei Giorgio, sendo o homem que era, nunca deixaria escapar uma oportunidade para tirar partido da lealdade de seu povo em proveito prprio, Natalia 
reconheceu, mas no aprovava, apesar de ser obrigada a admitir que ao lhe ser til isso tambm beneficiaria seu povo.
      O corpete do traje tinha de ser amarrado de forma to apertada que ela mal conseguia respirar. Natalia j havia enfrentado uma hora com um cabeleireiro que 
exigiu que seus cabelos fossem penteados em um estilo suntuoso e, agora, ao se olhar no espelho, a nica parte dela prpria que ainda podia lhe dar algum consolo 
era a sutileza do prprio perfume.
      Algum bateu na porta externa de seu apartamento e ao se abrir, uma pequena unidade de infantaria vestida tradicionalmente apareceu.
      Era hora de ir.
      Quando sasse por aquela porta estaria deixando Natalia Carini para trs para sempre.
      Quando retornasse, em seu lugar entraria por aquelas portas a noiva e futura mulher do prncipe Kadir de Niroli.
      
      Kadir podia ouvir o burburinho da multido do lado de fora, no grande ptio abaixo deles. Esse cmodos com balces para o ptio, de acordo com seu pai, eram 
os lugares de onde os antigos reis se dirigiam ao povo, informando-lhes as boas e ms notcias.
      As portas haviam sido abertas repentinamente ao som das trombetas. Ao pisar no balco, Kadir viu um arco-ris de fileiras de flores e confetes que eram arremessados 
ao ar no momento em que a banda comeou a tocar o hino nacional na praa.
      Ele mal reconhecia esse homem como seu pai. Eles se encontraram agora como dois homens maduros, com suas prprias rotas e prioridades sobre como agir na vida. 
Kadir foi tomado por uma inesperada emoo, que o pegou de surpresa. Ela tinha quarenta anos, pelo amor de Deus, um tanto quanto velho para comear a demonstrar 
sentimentalismos por uma relao inexistente entre pai e filho.
      O rei Giorgio deu um passo  frente, erguendo a mo e pedindo silncio.
      - Meu povo - ele anunciou. - Eu lhes dou o meu filho.
      
      Natalia podia ouvir o frenesi da multido ao se posicionar prxima ao balco, aguardando sua convocao para se juntar ao rei e ao futuro marido. L embaixo, 
no meio da multido, deveriam estar o seu av e outros membros de sua famlia. No importando o que as disputas do passado tivessem deixado entre eles, seu av e 
o rei Giorgio eram unidos pelo amor que sentiam por Niroli.
      Pela porta aberta, ela podia ouvir a voz do rei, agora um pouco trmula. Por causa da idade? Pela cerimnia? Suas palavras comoventes produziram um urro de 
aprovao na platia.
      - Ns sempre devemos lembrar que em tudo existe um propsito - o rei dizia. - Quando um aps o outro os meus herdeiros se desqualificaram para me suceder no 
trono, fui tomado pelo desespero, por vocs, pelo meu povo, e por meu pas, no sabendo, at ento, como sei agora, que o destino j havia escolhido o que me sucederia, 
o filho que eu no sabia que existia.
      - Um encontro h muitos anos resultou na concepo de meu filho, escondido de mim e mantido assim at que sua me, demonstrando piedade, confessou, em seu 
leito de morte, que eu era o seu pai. O prncipe Kadir desistiu de seu direito de governar o reino de Hadiya para assumir o manto de sua obrigao com o seu sangue, 
meu sangue, o sangue de vocs, povo de Niroli. Ele necessitar de ajuda para governar como vocs merecem ser governados, e, para esse fim, eu tenho o prazer de informar 
que, em dez dias, ele se casar com Natalia Carini, uma filha de Niroli.
      Quando a gritaria de aprovao foi ouvida, Natalia sentiu que a condessa lhe deu um leve empurro. Automaticamente, ela deu um passo adiante. Seu corao estava 
disparado dentro do peito. A claridade do dia seguida da sombra do salo onde estava a deixou momentaneamente cega ao pisar no balco.
      O rei estava ao centro do balco. Ela lhe fez uma reverncia e sentiu que o corpete lhe perfurar a pele ao se curvar. Atrs dela, os dignitrios da corte formavam 
uma coluna;  frente, a multido entusiasmada gritava seu nome.
      - Natalia. Natalia... Voc  a verdadeira princesa de Niroli. - O ar estava perfumado pelas ptalas de flores que eram jogadas pelos celebrantes. Alguns deles 
j estavam danando com a exploso de uma msica improvisada por um msico solitrio.
      - Filha de Niroli - ela podia ouvir o rei dizendo vigorosamente. - D-me sua mo para que eu possa simbolicamente uni-la, aqui na frente de seu povo,  mo 
e  pessoa de nosso herdeiro escolhido, meu filho, o prncipe Kadir.
      O rei estendeu a mo para ela e, pela primeira vez Natalia pde olhar para o rei Giorgio e para seu futuro marido.
      O mundo girava ao seu redor como se ela estivesse pendurada em uma roda-gigante. Ele! O homem de Veneza! Leon Perez! Certamente havia algum engano, ela pensou... 
mas, no... com certeza era ele! O prncipe Kadir, seu futuro marido, era Leon Perez, o homem com quem dormira em Veneza. No podia ser, mas era verdade.
      O choque lhe atingiu em cheio o corao, tirando-lhe o ar dos pulmes e escurecendo tudo ao redor. O barulho da multido foi se tornando um rudo distante. 
De onde estava, o burburinho lhe chegava abafado, tendo uma vaga noo das gargalhadas animadas do povo que se amontoava na praa. A algazarra diminuiu  medida 
que o povo viu Natalia tropear e quase cair. Ela no prestava ateno no povo, tudo o que conseguia ver era o futuro marido. Ele estava vestido com o uniforme de 
gala, de Comandante das Foras Armadas de Niroli, um manto de veludo verde-escuro com divisas de arminho presas a um dos ombros e o smbolo de Niroli gravado no 
anel que ostentava no dedo, mas nada daquilo podia disfarar a realidade: era o mesmo homem de Veneza.
      Algum a segurou com firmeza pelo brao, mantendo-a de p. Quando Natalia oscilou, um aroma muito familiar invadiu os seus sentidos. O olhar cruel que ele 
lhe lanou foi suficiente para revirar seu estmago, sem mencionar o recado ao p do ouvido:
      - Controle-se - ele sussurrou, demonstrando preocupao com a atitude dela.
      Com muito esforo, ela conseguiu se virar para a multido e sorrir, quando o rei apoiou sua mo fria sobre a do filho e herdeiro, o futuro rei de Niroli e 
seu futuro marido.
      - Meu povo - o rei Giorgio anunciou emocionado. - Eu lhes ofereo meu filho e sua noiva, seus futuros rei e rainha. Que eles possam servir ao povo de Niroli 
de forma prazerosa e que Deus os abenoe com um filho que possa dar continuidade as nossas tradies. Eu lhes peo que jurem amor e lealdade a eles, assim como eles 
a vocs. Meu povo, vocs aceitaro o prncipe Kadir como vosso futuro rei e sua futura mulher, Natalia Carini, como vossa futura rainha?
      - Ns aceitaremos - a multido respondeu em unssono.
      
      A aceitao do povo reverberou pela praa, como se mandasse uma mensagem para todas as partes da ilha. Natalia, contudo, se sentia tomada pela emoo pela 
afinidade que tinha com o povo amontoado l embaixo. Ela fazia parte daquela multido de uma forma que o rei, e muito menos o seu filho, jamais poderiam ser. Ela 
nasceu no meio deles e se criou com eles. Natalia prometeu em silncio que, de agora em diante, se dedicaria a servir ao povo e ao seu pas.
      A multido estava cada vez mais animada e alguns espectadores mais jovens e mais ousados gritavam para o balco:
      - Sua alteza, beije-a. Beije a noiva.
      Tudo o que Natalia podia fazer era um enorme esforo para tentar assimilar o que estava acontecendo. Como poderia ser? Como o homem a quem se entregara em 
Veneza poderia vir a ser o seu futuro marido? Ela se sentia fervendo, e ao mesmo tempo to fria, to entorpecida e, ainda assim, to sensvel.
      Obedecendo ao pedido da multido, Kadir se curvou na direo dela. Instintivamente ela recuou, assustada como se fosse uma virgem de 16 anos e no uma mulher 
madura de 29. A mo que segurava a sua apertou-a com tanta intensidade que Natalia achou que seus ossos fossem se partir, os olhos verdes lhe mandaram uma mensagem 
de fria, e logo aquela boca mscula estava encostada na sua para consolidar a priso em que ela, por vontade prpria, se metera.
      - Mais uma coisa - o rei Giorgio continuou, mas teve que elevar a voz para se fazer ouvir no meio da aclamao. - Em reconhecimento ao prazer que Natalia nos 
deu ao se tornar mulher de nosso filho, ns gostaramos de lhe oferecer um presente em pblico.
      A condessa e o ministro se aproximaram do balco trazendo um estojo de couro contendo uma jia, que foi entregue ao rei.
      O brilho da luz do sol refletido nos diamantes era to intenso que chegou a ferir os olhos de Natalia.
      - Estes diamantes foram o primeiro presente que dei a minha adorada primeira mulher, a rainha Sophia - o rei disse emocionado. - Desde sua morte, eu os mantenho 
trancados, incapaz de encontrar algum que os merecesse. Agora acredito que seja justo e de direito que eles sejam ostentados pela noiva de meu filho, Natalia.
      Obedientemente, ela abaixou a cabea, trmula ao sentir o peso e a frieza do colar sobre sua pele.
      - Kadir - o rei fez um sinal para o filho, indicando o enorme anel de diamante que acompanhava o bracelete e a tiara em uma caixa.
      Ao pegar o anel, Kadir olhou para ela outra vez. Seus olhos verdes demonstravam tanto desgosto e rejeio que Natalia recebeu aquilo como uma bofetada.
      - Deixe-o colocar o anel - a condessa sussurrou em seu ouvido. - As pessoas gostariam de v-la usando o anel.
      Desviando o olhar de Kadir, Natalia estendeu a mo. Seus dedos, longos e delgados, pareciam desproporcionais comparados ao tamanho da mo dele, enquanto o 
anel, entre os dedos dele, parecia cintilar de forma maligna. Ela tremia tanto que sua mo esbarrou na dele. Imediatamente ele cerrou o punho, como se rejeitasse 
o contato fsico com ela. O rosto de Natalia ficou em chamas. Ela desejou ter coragem para se virar e sair andando, mas era tarde demais. Ele estava colocando o 
anel em seu dedo e erguendo a mo para que a multido pudesse ver.
      A gritaria de aprovao era quase ensurdecedora. O rei Giorgio olhava triunfante, mas ela no ousou olhar para Kadir para ver como ele se sentia. Seu corao 
estava pesado, com medo do que teria de enfrentar no faturo. Mas agora era muito tarde para se arrepender, ela disse a si mesma, antes de se lembrar que no estava 
sozinha no que fizera. Mas Natalia no tinha como explicar o que acontecera. No havia como amenizar o ocorrido. A no ser que dissesse a verdade. Que verdade? A 
verdade de que fora tomada por um desejo incontrolvel por ele e que nada mais importava? Certamente como seu futuro marido, ele receberia com prazer a novidade.
      
      CAPTULO SEIS
      
      Onde isso terminaria? Natalia se perguntou, j cansada. Quando a condessa lhe informou que haveria uma recepo aps os pronunciamentos, ela no imaginava 
que teria de ficar ao lado do futuro marido diante das terrveis circunstncias. Sua cabea latejava e mal conseguia se mover, graas ao vestido e ao presente que 
o rei lhe dera. J era ruim o bastante se eles apenas continuassem sendo estranhos e no... no o que realmente eram.
      No era preciso que Kadir lhe dissesse o que pensava sobre ela, aqueles olhares hostis j deixavam as coisas claras. E que direito ele tinha de julg-la? O 
que ela teria feito que ele tambm no fizera? Contudo, no havia como acenar com a bandeira da igualdade de direitos nessa situao. Em um casamento como o deles, 
as leis aplicadas aos homens eram totalmente diferentes das que serviam para as mulheres.
      Historicamente, homens poderosos se casavam com virgens na hiptese de que o filho que nascesse nove meses depois fosse, com certeza, dele. O todo-poderoso 
primognito. Apesar das mudanas no mundo nos ltimos cinqenta anos, as velhas crenas ainda esta com moral para julgar o que precisava, perfeitamente capaz de 
policiar seu comportamento sexual, sabendo instintivamente o que era certo ou errado para ela. Natalia sempre acreditou que negar sua sexualidade depois de amadurecer 
era muito mais lgico do que ser promscua. E isso ela no era. Como poderia ser se manteve em celibato por tantos anos? A nica vez em que quebrou as regras morais 
impostas por ela mesma... a nica vez em que realmente sentiu o desejo domin-la, de fato, foi aquela noite com Kadir, mas agora como poderia fazer com que ele entendesse 
e acreditasse em tudo isso como deveria, pela garantia do casamento deles e felicidade de Niroli?
      L estavam eles, lado a lado, cumprimentando os convidados, unidos pelas mos do rei e pelo anel que ostentava no dedo, pela expectativa do povo de Niroli 
e ainda assim, na verdade, divididos por desconfiana, mentira, suspeita e atitudes opostas em relao  vida estavam profundamente impregnadas em alguns homens 
e nunca seriam apagadas ou suavizadas. A herana que Kadir recebera do povo de sua me certamente significava que, mais do que nunca, seu orgulho deveria exigir 
que a mulher a quem desse seu nome e semente deveria ser s sua. Natalia sabia muito bem disso pois ele mesmo o dissera diretamente. Seu erro no estava tanto no 
que fizera, mas por no ter pensado mais profundamente sobre as expectativas e intenes do homem que seria o futuro rei de Niroli, antes de se deixar levar pela 
emoo de lealdade para com seu pas.
      A unio deles, ela agora percebia, no seria um casamento comum por convenincia entre duas pessoas que entendiam os objetivos e interesses um do outro. Mesmo 
sem Veneza, ela nunca seria o tipo de mulher desejada por Kadir. Seus lbios se curvaram discretamente com desprezo por um homem que agora via como internamente 
fraco em todas as questes que lhe eram mais significativas, por sua rude masculinidade e sexualidade. Um homem que ainda estava to apegado a crenas ultrapassadas 
que automaticamente considerava inferior para ser sua uma mulher que tivesse sido "usada" por outro homem.
      Ela, por outro lado, tinha orgulho de tudo o que era, de tudo o que aprendera e da forma como fora criada, da adolescncia  vida adulta, fazendo suas prprias 
escolhas e aprendendo com elas. At Veneza, nunca houvera uma relao da qual se arrependera ou sentira vergonha. Era uma mulher madura.
      
      Kadir senta o desconforto provocado pelo espesso colarinho dourado do palet do uniforme. Era estranho e constrangedor comparado ao conforto e  familiaridade 
das tnicas rabes que costumava usar nas ocasies formais em Hadiya. Mais do que isso, sentia-se como se estivesse participando de uma pea de teatro, com um papel 
imposto a ele pela expectativa dos outros, mais do que vivenciando uma importante e vital parte do seu prprio futuro.
      A pesquisa que ele fez sobre Niroli depois da revelao de sua me lhe mostrou uma ilha com potencial para desempenhar um importante papel no mundo Geograficamente 
isolada, sua posio era privilegiada. O mundo estava mudando; antigos poderes davam lugar aos novos; homens com muita percepo com viso de futuro suficiente para 
abarcarem o que pudessem alcanar eram a nica opo para guiar o mundo para o novo renascer. Kadir desejava atuar ser influente e que seus filhos conseguissem chegar 
muito alm de Niroli. E, para esse propsito, decidiu que precisava de uma mulher que o entendesse, uma mulher que cumprisse o dever de lhe dar filhos que tivesse 
certeza que fossem dele, no uma mulher que pudesse casualmente se entregar a qualquer homem que a incitasse  luxria... uma mulher que se entregasse facilmente 
como uma cadela no cio.
      Kadir se enfurecia ao reviver o momento em que sua futura mulher apareceu no balco. Sua futura mulher era uma prostituta, pior que uma prostituta - ela se 
entregou apenas pelo prprio prazer; uma prostituta pelo menos colocaria um preo. Toda vez que se lembrava do descaso com que desrespeitou o casamento deles para 
se entregar a ele, Kadir tinha vontade de lhe arrancar os diamantes do pescoo e do dedo, as roupas do corpo e revelar quem ela realmente era.
      Quantas vezes ela teria escapulido de Niroli para se comportar como fizera com ele? Quanto tempo ela agentaria depois do casamento para repetir a dose? Um 
ano... um ms?                                                  
      Era impensvel que seu pai soubesse a verdade sobre ela. Ele percebeu o mesmo orgulho arrogante que possua nos olhos do rei Giorgio. Seu pai nunca a teria 
considerado uma possvel noiva se soubesse de tudo. A ltima coisa que pretendia fazer era se casar com ela mas as complicaes seriam enormes se recusasse agora. 
Nessa situao, era ele o intruso, quem teria que provar alguma coisa para ter a aceitao do povo da ilha. Rejeitar uma de suas "filhas" seria visto como um insulto. 
Ele estava preso ao casamento se quisesse ter Niroli, e Kadir sabia que queria.
      
      Os cortesos discretamente persuadiram os ltimos convidados a irem embora.
      Kadir estava concentrado em uma conversa com o pai e a ignorava. Deliberadamente? Quanto mais durasse a recepo, mais tempo teria para pensar e avaliar a 
realidade de seu futuro e o quanto seria impossvel atur-lo. Ela percebeu que a condessa se aproximava, provavelmente para sugerir que j estava na hora de se recolher, 
Natalia pensou ironicamente.
      A etiqueta da corte de Niroli continuava presa aos hbitos do sculo XIX, onde o homem tinha de esperar para "ficar  vontade", ou seja, um pouco depois que 
a mulher tivesse se retirado.
      A condessa se aproximou.
      - O que eu devo fazer com isso? - Natalia perguntou, referindo-se ao colar de diamantes.
      - O rei j deixou claro que, a partir de agora, a jia lhe pertence - a condessa respondeu rapidamente. - Ser um bom incio para a coleo de jias de que 
precisar como mulher do prncipe Kadir. Claro, quando ele ascender ao trono, voc ter acesso s jias da Coroa de Niroli, e me atrevo a dizer que, quando ele a 
levar para Hadiya depois do casamento, lhe presentear com uma jia pessoal de sua me. Claro que voc pode esperar receber jias como presentes de lderes de outros 
pases no seu casamento, mas, por enquanto, se estiver pronta para se retirar...
      Natalia consentiu, balanando a cabea, e esperou que a condessa a acompanhasse at o rei para que pudesse solicitar formalmente permisso para se retirar.
      Ele deu a permisso e, para alvio dela, se virou de costas, permitindo que Natalia se virasse para sair, em vez de ter que sair de costas. Kadir interrompeu 
a conversa com o pai e disse de forma imperiosa:
      - Eu gostaria de ter uma conversa particular com minha futura mulher.
      - Alteza, as providncias j foram tomadas para que passem uma hora caminhando em pblico - disse o ministro, mas Kadir o interrompeu sacudindo a cabea.
      - H assuntos que preciso conversar com minha noiva que so apenas do interesse dela. Com a permisso de meu pai, posso acompanh-la at seu apartamento?
      Na verdade, o rei Giorgio deu uma gargalhada e apertou a brao de Kadir, dizendo jovialmente:
      - Voc  um homem como eu pensava, realmente  meu filho. Em seu lugar, eu tambm gostaria de algum tempo sozinho com minha futura mulher.
      - Sua alteza, Natalia ainda est usando as jias da rainha Sophia. Ela...
      - Dificilmente meu filho as roubar, condessa - rei dispensou a condessa de forma impaciente.
      - Voc tem a minha permisso para acompanh-la at seu apartamento, Kadir.
      O rei entendeu mal a razo do comentrio da condessa, Natalia suspeitou, ele no precisava usar jias pesadas e corpetes to apertados que as suas costelas 
poderiam estar machucadas quando os retirasse. Os olhares trocados entre os cortesos indicavam que eles achavam que os noivos planejavam ceder ao desejo das intimidades 
antes do casamento, mas Natalia sabia muito bem do que se tratava, mesmo no se deixando trair pelos pensamentos ao posicionar a ponta dos dedos no brao que Kadir 
estendeu para ela, deixando-se ser conduzida por ele at a sada.
      Ela j estava comeando a se acostumar com a presena de outras pessoas ao seu redor no novo papel que desempenhava. Dois guardas uniformizados ficaram atentos 
quando eles deixaram o grande salo, enquanto os funcionrios uniformizados se espremiam contra a parede do corredor.
      - Minhas damas de companhia estaro me esperando no meu quarto para me ajudarem com a roupa - ela informou, sem olhar para ele. - Portanto, o que quer que 
voc queira me dizer, se deseja falar em     particular,  melhor falar agora.                                  
      - O que quer que eu queira lhe dizer? No  bvio o quero lhe dizer, ou a explicao deveria vir de voc?                                                  
      - Meu comportamento antes de nos encontrarmos hoje como um casal que acabou de fazer um acordo de casamento no tem nada a ver com esse casamento - Natalia 
disse calmamente, esperando que ele no percebesse o quanto estava insegura e se sentindo muito mal com tudo aquilo. -- Voc no tem o direito de cobrar explicaes 
sobre o ocorrido e eu no pretendo lhe dar. Eu sou dona da minha prpria vida.
      - Voc fala com muita propriedade. Deve ter sido fcil contar mentiras durante esses anos para esconder sua verdadeira falta de moralidade. Eu sei quem voc 
era...
      Ele no fazia nenhum esforo para disfarar sua raiva ou desprezo, e Natalia reagiu a isso, enrijeceu-se ao parar de andar e tentou se afastar dele. Imediatamente 
ele a segurou com a mo direita, prendendo-a junto de si. Ela percebeu que a raiva dele era tanta que parecia ter vida prpria. O antagonismo preenchia o ar em volta 
deles e exercia presso sobre ela. Eles estavam sozinhos no corredor, nenhum homem a fizera se sentir to vulnervel e pequena.
      - O que sou agora  o que sempre foi: clara e honesta. Meu corpo me pertence para us-lo como bem entender. Meu nico erro, percebo agora, no estava no meu 
desejo, mas na minha falta de critrio para escolher o parceiro - Natalia reagiu com intensidade.
      -  claro que voc teria agido de outra forma se soubesse quem eu era.
      - No foi isso que eu disse e no  o que sinto. Minha falta de critrio foi no perceber o quanto voc no era merecedor de mim. Voc quer me envergonhar, 
fazer com que eu me sinta culpada por um crime que acha que cometi. Meu crime, se  que h algum,  contra mim mesma, por no perceber o quanto  impossvel para 
uma mulher com a minha aparncia e independncia ter qualquer tipo de relacionamento com um homem como voc.
      - Voc ainda ousa falar de mim? Voc, que se comportou como nenhuma mulher com moral se comportaria?
      - Nenhuma mulher com moral? O que voc sabe sobre a "moral" das mulheres? Nada. Tudo o que voc conhece de uma mulher  obedincia e submisso. A moral de 
uma mulher  o pacto que ela faz, os votos que faz para si, com ela mesma. S ela conhece os limites e s ela tem o direito de saber. No passado, minha sexualidade 
era evocada por mim e por quem eu escolhesse para compartilh-la. Nosso noivado marca um ponto em minha vida, em que compete a mim considerar minha "moral" e meus 
desejos em conjunto com as restries impostas a mim, em funo do papel pblico que assumi como mulher do futuro rei de Niroli. Nessa funo, tenho obrigaes com 
o povo de Niroli e com a Coroa, e foi minha escolha aceitar essas obrigaes e restries.
      - Se voc est tentando me dizer que o que presenciei em Veneza foi uma ltima experincia, uma repugnante festa com a inteno de saciar o seu apetite pelo 
resto de nosso casamento, ento devo dizer que no acredito. E mesmo que acreditasse, para mim no haveria desculpa. Uma mulher que se comporta como voc nunca poder 
ser uma esposa ou me satisfatria - ele segurou Natalia de forma arrogante.
      Isso era demais.
      -  bastante tpico voc sustentar esse julgamento sexual a meu respeito. Uma mulher com habilidades para experimentar o seu desejo sexual no tem direito 
de ser me ou esposa, longe disso. E se voc fosse metade do homem que julga ser, saberia disso. O rei Giorgio me disse que voc queria governar Niroli porque tinha 
plena conscincia de que no conseguiria governar o povo de Hadiya como era esperado que o fizesse. Ele disse que voc gostaria de abraar uma forma de liderana 
mais moderna. Disse que voc estava pronto para aprender comigo, o que significava pertencer a Niroli, mas  bvio que nada disso era verdade.
      Na penumbra do corredor, ela pde perceber a raiva tomando conta da expresso dele.
      - Voc ousa me acusar...
      - Eu ouso fazer qualquer coisa que tiver de fazer pelo meu pas. Alis, esse  o nico motivo que me levou a aceitar esse casamento - Natalia jogou as palavras 
em defesa prpria.
      O olhar que ele lhe lanou chegava a queimar, e agora foi a vez dela se sentir invadida pela raiva.
      - O nico motivo? E o vestido de alta-costura que est vestindo, e os diamantes no seu pescoo?
      - Voc acha que eu os desejo? No mesmo. Eles nada significam para mim. No, isso no  verdade. O que eles representam para mim  o modo como os pobres so 
forados a trabalhar por uma mixaria para que os ricos possam se enfeitar. Voc diz que eu estou lhe enganando, pois bem, eu poderia lhe acusar da mesma coisa. Voc 
no  o homem que acreditei que se casaria comigo, um homem respeitvel para ser o pai dos meus filhos.
      Natalia arfou quando ele a puxou pelo brao e virou-a contra a luz para que pudesse lhe encarar.
      - Voc ousa falar comigo sobre paternidade? Antes desse nosso casamento ser consumado eu deveria requerer provas evidentes de que voc no est grvida de 
outro homem.
      - Isso seria impossvel, j que o ltimo homem, o nico em muito tempo, com quem fiz sexo foi voc.
      - Voc espera que eu acredite nisso?
      - Por que no, se  a verdade? Voc  muito rpido em me exigir explicaes pelo meu comportamento, mas  to culpado quanto eu - Natalia percebeu o quanto 
ele detestou o comentrio. Ela se sentia muito cansada e vulnervel. Uma parte dela ansiava poder segur-lo pela mo e dizer-lhe o quanto sentia saudades da luxria, 
para ser honesta com ele. E ser capaz de lhe contar que foi ele que a levou a desej-lo de forma to incomum. Ela poderia fazer isso? Poderia arriscar e lhe pedir 
uma chance para comearem do incio e que, como sua futura mulher, estava livre para dizer abertamente o quanto o desejava fisicamente? Afinal, eles seriam marido 
e mulher. Ela teve esperana. Certamente esse seria o preo para deixar de lado o orgulho e ser honesta com ele...
      - Eu sou um homem. J fazia algumas semanas desde a ltima vez em que estive com minha amante...
      Ele tinha uma amante. Natalia sentiu o balde de gua gelada. Ele tinha uma amante. Claro que deveria ter. Claro que tinha! Como no pensou nisso como uma simples 
explicao para aquela violenta tentativa em control-la, em vez de ter sido idiota o suficiente para pensar que ele a desejava?
      Como se algum tivesse assumido o controle sobre ela, Natalia falou de forma enftica:
      - Verdade? Bem, eu tenho certeza de que ela ficar satisfeita em saber que voc no se permitiu ficar em abstinncia sexual enquanto esteve longe dela.
      Kadir se amaldioou internamente. Por que se deixava irritar por ela ao falar sobre Zahra, especialmente agora que o relacionamento j havia acabado? Kadir 
tinha o prprio cdigo moral e isso no inclua fazer sexo com uma amante estando quase casado. Em algum lugar no seu inconsciente havia a inteno de estabelecer 
uma vida sexual ativa com sua noiva, mesmo reconhecendo que era pouco provvel que pudesse existir uma verdadeira paixo ou desejo entre eles. O destino deveria 
estar rindo pela pea que lhe pregara. No existia a menor possibilidade de manter uma relao sexual confortvel com essa mulher, muito menos paixo e desejo... 
Ele no sentia nenhuma paixo ou desejo por ela. Logicamente falando, era bem possvel que viesse a possu-la da forma como o fez por estar h muito tempo sem sexo. 
Mas isso era tudo. Nada mais. Nada especial... Nada que significasse um grande desejo a ponto de esquecer o que acontecera.
      Aquela intensa e insuportvel tristeza que sentia no poderia ser por causa da declarao de Kadir de que tinha uma amante, poderia? No deveria ser. No agora 
que realmente sabia o que ele pensava a respeito dela. Ela no poderia, no deveria, suportar um casamento no qual desejasse um homem que s sentia desprezo por 
ela. No poderia correr esse risco, e s havia uma maneira de evitar. Acabar rapidamente com a agonia agora, separando-se dele para sempre, ficando livre para fazer 
de sua vida o que bem entendesse. E, se fosse preciso, longe de Niroli. Isso lhe traria mais dor, Natalia amava tanto o seu pas... mas no poderia pensar nisso 
agora. Ela respirou fundo.
      - Veja, por que no nos livramos de uma situao que ambos no desejam? Eu mudei de idia, Kadir, e no pretendo mais me casar com voc. Eu contarei isso  
condessa pela manh e pedirei que ela informe...
      - No! - a veemncia da negativa dele a deixou assustada. - No - ele repetiu. - Voc no far isso. Voc se casar comigo e far o que eu digo no porque 
ele a desejasse. Isso nunca. No, era por Niroli e pelo futuro do pas que Natalia tinha de ser sua mulher. O rei Giorgio j rejeitara muitos herdeiros, Kadir no 
lhe daria motivos para ser rejeitado tambm.
      - Isso aqui  Niroli, no Hadiya - Natalia retrucou irritada. -- Voc pode ter sido proclamado prncipe herdeiro de Niroli, mas no h leis reais absolutas 
aqui. Niroli  uma democracia. Ns temos leis que protegem os direitos do povo. Casamentos forados no acontecem por aqui.
      - Voc se casar comigo - Kadir continuou como se ela no tivesse dito nada. - Porque se voc no se casar, eu direi ao mundo que sou eu quem est se recusando 
a se casar com voc por causa do seu comportamento.
      Natalia reconheceu, contrariada, que estava em unia armadilha. No se importava com o que ele pudesse dizer ao mundo, mas se preocupava com o av dela, Ele 
ficaria chocado e magoado, e no apenas isso, se sentiria humilhado publicamente tambm.
      - Voc se casar comigo e, a partir de agora at o momento do nascimento do meu filho, no sair do meu campo de viso. Eu providenciarei para que voc seja 
vigiada dia e noite, para que nunca tenha oportunidade de me impingir um bastardo. Como preciso ter herdeiros,  bom que engravide o mais rpido possvel, logo que 
nosso ms de abstinncia termine. Eu preciso ter certeza de que voc no est carregando um bastardo - ele a soltou de forma to bruta que ela quase se chocou contra 
a parede do corredor. A parte do brao onde ele a segurou ficou dolorida.
      
      
      
      CAPTULO SETE
      
      Ao chegar ao quarto, Natalia estava infeliz. Mais tarde, Kadir faria seu juramento formal de lealdade a Niroli e ao rei Giorgio e, em troca, o rei lhe proclamaria 
prncipe herdeiro. No dia seguinte, pela manha ela se casaria com Kadir na catedral de Niroli e, no outro dia, eles tomariam o jatinho particular que os levaria 
para Hadiya.
      Esta noite, como sempre desde que o noivado fora anunciado h nove dias, dois guardas ficariam de planto em ambas as sadas do apartamento. Era uma formalidade 
que Kadir, de alguma forma, convencera a condessa de que era necessria. Durante o dia, ela nunca era deixada sozinha. Fosse a condessa ou uma das camareiras ou, 
pior ainda, o prprio Kadir, sempre havia algum ao seu lado. A condessa lhe dissera que Kadir estava preocupado que ela, com as novas obrigaes. As damas de companhia 
achavam que, sem a presena delas, Natalia no seria capaz de lidar com os luxuosos trajes que Kadir insistia em v-la usando no lugar de suas roupas casuais, roupas 
estas que estavam trancadas em algum lugar. E ainda havia o pior dos momentos, quando Kadir colocava as mos sobre ela, o gesto de um devotado noivo que lhe pedia 
para passear pelos jardins do palcio com ele para que Natalia pudesse lhe contar a histria do povo de Niroli.
      Uma parte dela, a parte mais fraca que Natalia secretamente desprezava, desejava engravidar logo para poder escapar do constante monitoramento, mas outra parte, 
a verdadeira, a parte mais forte, odiava a idia de trazer ao mundo um beb indefeso sob tais circunstncias, e buscava uma maneira de escapar do casamento.
      Na volta da lua-de-mel, eles dividiriam o apartamento real disponvel para o prncipe herdeiro e, dentro de poucos minutos, ela seria obrigada a fazer um passeio 
com Kadir e o superintendente fiscal da famlia real. Foi por isso que desistira de sua liberdade? Por um casamento baseado na desconfiana e suspeita com um homem 
que ela agora desprezava tanto quanto ele a ela? Como pareciam tolos, agora, os grandes ideais que a levaram a concordar em se casar com Kadir. As promessas que 
fizera a si mesma sobre tudo o que faria pelo marido e por seu povo esvaziaram-se todas.
      
      - Quando foi a ltima vez que estes quartos foram decorados? - Natalia se surpreendeu com a pergunta de Kadir. Parecia fora de propsito que ele se preocupasse 
com coisas to triviais.
      - Eles foram decorados para o filho falecido do rei e sua famlia.
      Ser que aquela explicao justificava o ar de tristeza que pairava nos ambientes vazios? Natalia se perguntou. O filho primognito do rei e da rainha Sophia 
havia morrido em circunstncias trgicas e antes ao seqestro traumtico de seus netos gmeos.
      O que restou, o prncipe Marco, agora estava feli2 e casado com sua mulher inglesa, Emily, mas admitiu que sua infncia fora sombria e difcil e que, depois 
de adulto, se sentia desconfortvel em seus aniversrios Tanto que rejeitou o trono. Ela esperava que seus filhos no tivessem o mesmo destino. O fardo de nascer 
em uma famlia real poderia ser muito penoso se no fosse aliviado pelo amor e a proximidade com a vida familiar. Ela gostaria que seus filhos crescessem sob a luz 
do sol de uma futura Niroli, com coraes harmonizados com o futuro, de modo que pudessem dividir isso com o povo de seu pas.
      O quarto em que estavam possua janelas que davam, de um lado, para um jardim particular e, do outro, para o mar. Num mpeto, Natalia se virou para o superintendente, 
dirigindo-se a ele pela primeira vez;
      - H algum quarto com janelas voltadas para a cidade?
      O superintendente franziu as sobrancelhas.
      - Esses quartos existem, mas os membros da famlia real tradicionalmente preferem uma vista mais privativa.
      - O que voc tem em mente? - ela ouviu Kadir perguntar, como se estivesse impaciente com sua intromisso.
      - Nossos filhos, um dia, sero os que conduziro Niroli rumo ao futuro - Natalia informou aos dois.
      - Como podero fazer isso se crescerem sem olhar o povo? Como podero entender e apreciar o que significa ser de Niroli se nunca puderem ver como o nosso povo 
vive? Quando eu era criana, perambulava pela cidade livremente, explorando-a, tomando-a como se fosse minha, ligando-me a ela como ela se ligava a mim. Eu era capaz 
de encontrar qualquer rua de olhos fechados, e agora conheo cada nuana de seus aromas, todos os lugares onde florescem as flores e as ervas mais preciosas. Amar 
o seu pas  uma coisa que as crianas aprendem com os pais. Compreender e conhecer o seu povo so coisas que s se pode aprender com a experincia. - Ela falou 
demais, se exps muito- Natalia reconheceu que, ao fazer isso, poderia ter hostilizado Kadir e prejudicado sua causa.
      - Cabe a sua alteza aprovar ou desaprovar o apartamento - ela disse ao superintendente. - Eu devo seguir o que ele decidir.
      - Minha futura esposa est certa. Eu mesmo ainda conheo muito pouco de meu pas. Um homem que s olha para dentro aprende muito de si mesmo, mas muito pouco 
dos outros. Um rei que governa um povo deve estud-lo tanto quanto a si mesmo. Se houver quartos disponveis com vista para a cidade...
      Natalia olhou para o superintende sem acreditar. Ela se virou para olhar para Kadir, mas ele olhava para o outro lado.
      - Eu tambm gostaria de dividir a cama com minha mulher, em vez de dormirmos em camas separadas - Kadir falava com o superintendente com a praticidade que 
se lida com os negcios. - Afinal temos a obrigao de dar a Niroli uma nova gerao de herdeiros.
      
      - O casamento  aprovado por Deus, assim como a estrutura familiar onde as crianas crescero...
      Natalia ficou tensa com o peso do pomposo vestido de noiva e com o comprimento do vu. A renda valenciana que compunha o vestido foi confeccionada originalmente 
para o vestido de casamento da rainha Sophia. Levemente amarelada pelo tempo, ela caia muito bem sobre o cintilante vestido dourado.
      Sempre fora o desejo de Natalia no usar branco. Ela era uma mulher e no uma menina, uma mulher orgulhosa de tudo o que era. E se Kadir no era homem o suficiente 
para aceitar isso, se achava necessrio lhe lanar olhares cnicos quando se juntou a ele no altar, ento o problema era dele. Sua conscincia estava tranqila.
      Era isso? Se ela tivesse engravidado em Veneza... Se tivesse, mas como poderia, se Kadir usou preservativo?
      O uniforme branco com adereos dourados que Kadir usava, em vez de parecer ligeiramente ridculo, na verdade, a fez entender o seu verdadeiro significado nos 
sculos passados, para um rei e seus herdeiros enfrentarem uma batalha na linha de frente por seu pas. Ela podia facilmente vislumbrar Kadir em tal papel. No que 
Hadiya ou Niroli tivessem enfrentado alguma batalha durante sua existncia, ou que desejasse tal coisa. Na verdade, ela esperava, junto com Kadir e seus futuros 
filhos, promover um mundo de paz.
      - Eu os proclamo marido e mulher...
      Natalia ficou chocada ao perceber que estava com os olhos marejados ao ouvir as primeiras notas de "Ave Maria" ecoarem do coro e preencherem a antiga catedral.
      Estava feito. Ela era sua mulher. Seu compromisso com o pas e seu futuro tinha agora que comear, antes de qualquer coisa.
      
      Agora Natalia era sua mulher. Essa mulher que sua inteligncia mandava desprezar e insultar, mas pela qual seu corpo ansiava fervorosamente na penumbra da 
noite e nos momentos de solido. Como ele havia admitido isso? Kadir se perguntou assustado. Deve ter havido uma noite, ou duas, em que se levantara de madrugada, 
como muitos outros homens, desejando desesperadamente uma mulher. Isso no significava que desejasse Natalia Carini. No era mais Natalia Carini, mas sim a princesa 
herdeira Natalia, ele se corrigiu. Sua mulher, sua companheira nessa nova jornada em que se empenhava, uma deciso que provavelmente o fazia evitar o reconhecimento 
das dificuldades de relacionamento com seu pai.
      Com que idade descobriu que o homem que julgava ser o seu pai no o amava e que no havia nada que pudesse fazer para atrair a ateno destinada ao seu irmo 
mais novo? Oito? Seis? Mais novo? Crescido o suficiente para reconhecer que estava sendo rejeitado e, naquela poca, jovem o bastante para suportar aquele sofrimento 
e saber como se defender daquela dor. Como o pai poderia ter se virado contra ele? Os olhares indiferentes e os modos pouco gentis imediatamente se transformavam 
quando ele se dirigia paternalmente ao irmo mais novo.
      Ele ainda podia ver mentalmente e sentir a angstia de sua me quando se postava no ptio, cuidando dos irmos que brincavam. No momento em que o pai chegava 
ao ptio, uma simples palavra de sua me trazia uma das empregadas para o seu lado, deixando seus pais sozinhos com o irmo.
      Seus protestos sempre foram contestados com alguma explicao racional: ele era mais velho, seu irmo era apenas um beb. E ele se esforou ao mximo para 
atrair a ateno e a aprovao do pai, enquanto sua me tentava ao mximo mant-los afastados.
      - Eu fiz isso para o seu bem - ela lhe disse quando lhe contou a verdade. - Para proteg-lo, porque eu temia que ele lhe olhasse e percebesse, como eu percebia 
claramente, que voc no era filho dele.
      Tudo mentira, claro. Ela no fazia isso para proteg-lo, mas para esconder sua prpria vergonha e se proteger. Mas como aprendeu mais tarde, era o que as mulheres 
sempre faziam. Elas mentiam em proveito prprio e depois aumentavam ainda mais os estragos fingindo intenes altrustas. Um homem no deveria se deixar minar por 
uma mulher. Ele certamente no permitiria que Natalia minasse a posio que pretendia reivindicar por si mesmo em Niroli. Agora, era muito fcil entender por que 
seu pai freqentemente, e injustamente, ele acreditava naquela poca, questionava a lealdade de Kadir para com Hadiya e sua capacidade de governar. Sua me jurou 
que seu marido nunca soube que ele no era seu filho, mas Kadir no estava convencido disso. O sheik podia no conseguir provar, mas Kadir tinha certeza de que ele 
suspeitava. Ele sabia, por experincia prpria, o que acontecia entre um homem e uma criana quando esse homem no aceitava a paternidade dessa criana. E isso no 
aconteceria com ele. Nenhuma criana que fosse criada com o seu nome deveria suscitar qualquer dvida do seu amor ou total certeza de que era seu verdadeiro pai.
      
      Eles passariam a primeira noite de casados em seu apartamento no palcio, antes de viajarem para Hadiya pela manh. Natalia se mantinha firme e em silncio 
em sua sala de vestir, enquanto as damas de companhia lhe ajudavam a tirar o vestido. Quaisquer que fossem as circunstncias, ela teria sentido alguma apreenso 
natural sobre o que a esperava mais tarde. Ela j havia sido intensamente advertida para no ser sentimental no que dizia respeito s relaes sexuais, mas estaria 
mentindo se tentasse fingir para si mesma que no havia uma pequena parte que desejava vivenciar uma relao de proximidade sexual na qual duas pessoas estivessem 
completamente comprometidas uma com a outra. E o fato de saber que nunca teria isso a deixava angustiada.
      Apesar de ter prometido a si mesma no agir como sonhadora ou como idealista, agora sabia que seu grande erro fora acreditar que ela e Kadir se uniriam apesar 
do compromisso que compartilhavam com Niroli. Levando-se em conta os cuidados que teriam para que esse relacionamento desse certo, certamente refletia os cuidados 
que deveriam ter para trabalharem pelo bem da ilha. A inteno agora parecia passvel de riso diante do que acontecera. Ela agradeceu s damas de companhia, reconhecendo 
o quanto estava desapontada e com raiva de si mesma e de Kadir.
      Ao lado do quarto de vestir encontrava-se o seu banheiro particular, assim como, exatamente do outro lado da cama que compartilhariam, encontravam-se o quarto 
de vestir e o banheiro de Kadir. Ela no queria pensar nos preparativos que ele deveria estar fazendo para sua primeira noite juntos como futuros rei e rainha de 
Niroli. Ser que ele ainda pretendia esperar um ms inteiro depois de Veneza para consumar o casamento? Ou certamente se aproximaria dela na noite de npcias?
      Ela no tinha iluses e sabia que ele realmente cumpriria o prometido: mant-la sob vigilncia dia e noite at que estivesse grvida. Como tudo isso era irnico, 
levando-se em conta seus longos anos de celibato. Um celibato quebrado por causa do seu devastador desejo por um homem, o prprio Kadir.
      Ela j havia combinado com as damas de companhia que preferiria tomar banho sozinha. Seus olhos se arregalaram quando entrou no banheiro e se deparou com um 
champanhe gelando em um balde. Para acalmar seus nervos? De quem teria sido a idia? Ela teria preferido uma taa de vinho branco orgnico de Niroli, se tivesse 
escolha.
      Ela tomou um banho rpido, em vez de ficar se comprazendo no enorme e luxuoso cmodo. Enxugou-se e vestiu um roupo para sair do banheiro.
      Algum havia apagado as luzes da cabeceira e havia outro balde com champanhe ao lado da cama
      Ela olhou para a cama vazia, respirou fundo e puxou as cobertas para esperar pelo marido.
      
      Duas horas depois, ainda estava sozinha. Natalia ouviu barulho no quarto de vestir de Kadir, murmrio de vozes, provavelmente seus valetes, ela sups. Depois, 
silncio. E quando relaxou os msculos de toda tenso, admitiu a desagradvel verdade. Kadir no pretendia passar a noite de npcias com ela.
      Se tivesse 19 anos, o comportamento dele a teria levado s lgrimas, arruinada pela rejeio. Mas no tinha, e certamente no pretendia deixar que Kadir fizesse 
qualquer tipo de jogo para ganhar. Aquele sentimento a magoava? Que sentimento? Ela se recusava a admitir que existisse qualquer sentimento.
      
      
      CAPTULO OITO
      
      Natalia achava que estava acostumada ao calor, mas o clima de Niroli no era nada comparado ao calor que fazia em Hadiya.
      Pelo menos aqui, nos aposentos particulares reservado s mulheres do palcio real de Hadiya, a arquitetura era favorvel e, de vez em quando, soprava uma brisa.
      Naquela manh, ela acordou com o aroma de flores que vinha do ptio, enquanto ouvia o delicado som da gua da cascata. O apartamento era projetado para valorizar 
os sentidos. Ela agora saboreava uma xcara de caf, enquanto admirava as coisas que a cercavam e pensava em tudo o que havia acontecido desde sua chegada a Hadiya, 
na noite anterior.
      Se realmente fosse sincera, teria de admitir que ficara chocada ao ver o quanto eram orientais os costumes de Hadiya. Ningum questionou a sua ausncia na 
recepo formal que foi oferecida para saudar Kadir como prncipe herdeiro de Niroli. Em vez disso, Natalia teve de observar tudo por trs de uma delicada trelia 
que separava a rea das mulheres do "sof" pblico onde o irmo de Kadir estava.
      Tambm lhe pareceu estranho o fato de os assuntos de Hadiya serem, em teoria, discutidos no tal "sof", onde perguntas eram feitas ao soberano. A jovem mulher 
que lhe foi apresentada como sua orientadora para os assuntos protocolares de Hadiya lhe explicou que, nesses tempos modernos, todos os que quisessem se aproximar 
do sheik eram cuidadosamente examinados antes. Esse era um costume muito parecido com a tradicional "imposio das mos", comum entre os monarcas europeus.
      Isso era certamente um processo democrtico, tornando o soberano mais acessvel e o aproximando de todas as esferas da vida cotidiana. Niroli poderia se beneficiar 
desse procedimento?
      Natalia deu um sorriso sem graa. Ela se perguntou quantas noivas em seu segundo dia de casadas estariam desperdiando tempo pensando em problemas polticos, 
principalmente se fossem casadas com um homem to atraente quanto Kadir. Da mesma forma, poucas noivas teriam passado aquelas noites dormindo sozinhas.
      Certamente no era parte do protocolo de Hadiya os recm-casados dormirem separados. Basima discretamente j lhe informara que era considerado perfeitamente 
normal que uma noiva visitasse o quarto do noivo, localizado ao lado do dela. E quem era Zahra Rafiq, aquela mulher arrogante e presunosa que lhe foi apresentada 
como filha de um proeminente homem de Hadiya? Que coisa maravilhosa era o instinto feminino. Logo de imediato, Natalia no simpatizou com ela, mesmo antes de ser 
informada, de modo pouco sutil, que aquela era a amante de Kadir. Era? Zahra deixara claro que pretendia que a relao continuasse, mas ela vivia em Hadiya, como 
Kadir j havia deixado claro para Natalia, embora em um contexto completamente diferente. Ele considerava o seu futuro como rei de Niroli a coisa mais importante, 
acima de todos e de todas as coisas.
      Ser que Kadir havia passado a noite anterior com Zahra?
      Ela percebeu que no quando Zahra rondou o seu quarto, retirando-se em seguida.
      Racionalmente falando, por que, depois de tudo ainda se incomodava se Kadir mantinha ou no uma amante? Mas as emoes das pessoas no tinham lgica, ou tinham? 
Ela seria apenas uma mulher ciumenta ofendida com o papel que outra mulher ocupava na vida de seu marido? Desde quando suas emoes tinham algum direito de se intrometer 
em seu casamento? No tinham e no deveriam ter, Natalia disse a si mesma com firmeza. S porque nutria uma atrao fsica por Kadir, isso no significava que havia 
algum sentimento envolvido. Agora mesmo, ela iria se esquecer de que tivera essa conversa consigo mesma e se concentraria em seu papel de consorte do prncipe herdeiro 
de Niroli.
      Esta manha, por exemplo, faria um passeio pelo novo colgio tcnico para moas de Hadiya. A porta externa da sala se abriu, e seus sentidos, como se fossem 
os de um gnio da garrafa, ficaram em alerta sem que ela soubesse o porqu. Ento, a prpria Zahra entrou. Unia viosa e bem torneada socialite, com os cabelos tingidos 
de louro, o tipo de mulher instantaneamente reconhecida por outras como fria e calculista, ainda que admirada e desejada pelos homens.
      - Eu disse a Basima que lhe acompanharia na visita formal esta manh - ela informou. - Tenho alguns assuntos para discutir com voc que sero de grande proveito 
no seu casamento com Kadir.
      Natalia a olhou pensativa e, em seguida, se lembrou da deciso que tomara.
      - Eu duvido - ela disse calmamente. - A experincia de uma amante com um homem raramente tem alguma relao com a experincia que ele tem com sua mulher. O 
papel de mulher, afinal, engloba muito mais coisas do que simplesmente passar algumas horas com ele na cama.
      Natalia percebeu pela forma de olhar de Zahra que seu comentrio fora certeiro.
      - Kadir est certo. Voc no  o tipo de mulher com quem teria se casado se tivesse permanecido aqui - Zahra revidou com um sorriso falso. - Mas  claro que 
todos ns sabemos que voc foi elevada a tal posio por causa da insensatez da me de Kadir. Se ela no tivesse misturado o pecado de ter trado o marido com a 
omisso da paternidade de Kadir, ele teria tido mais tempo para preparar os planos para um casamento mais compatvel.
      - Eu no me surpreendo que a princesa Amira tenha achado necessrio manter o seu segredo, dada a completa falta de compreenso que provavelmente enfrentaria 
- Natalia retaliou com tranqilidade - Mas se voc quer dizer mais compatvel pensando em voc...

      Natalia percebeu, pelo suspiro de Zahra, que ela no estava preparada para encontrar uma esposa to tranca.
      - Eu sou muito modesta para ousar sonhar com tal honra - Zahra retrucou, demonstrando qualquer outra virtude, menos modstia. - Eu me contento com a generosa 
entrega de prazer que Kadir me destina.
      - Contanto que venha acompanhado de uma grande ajuda em forma de presentes caros e do reconhecimento pblico da importncia do papel extra-oficial de sua amante 
- Natalia concluiu cinicamente.
      - Para mim, a felicidade de Kadir  muito mais importante do que a minha prpria - Zahra continuou de forma inconveniente. - Por isso estou me esforando para 
deixar de lado os meus sentimentos para ajud-la a ser o tipo de mulher de que Kadir necessita.
      Zahra era esperta, Natalia admitiu. Ela queria uma discusso e certamente sabia como provoc-la. Com aquelas poucas palavras bem escolhidas, ela conseguiu 
provocar o dio de Natalia.
      - Veja - ela lhe disse rispidamente -, no vamos perder o nosso tempo. Kadir optou por aceitar a oferta do rei de Niroli, meu pas, no o dele e muito menos 
o seu, para ser o prximo rei. Um papel que ele s poder desempenhar graas a essa me que voc tanto despreza. O rei Giorgio escolheu a mim para ser a mulher de 
Kadir porque, apesar de eu no saber nada sobre os costumes de Hadiya, eu conheo muito bem o corao e a mente do povo de Niroli. Eu sei o que  importante para 
eles, como pensam, como se sentem, o que esperam e o que no esperam de seu novo rei. Foi por isso que o rei Giorgio me perguntou se eu abriria mo de minha liberdade 
de mulher solteira para me tornar mulher do futuro rei de Niroli. Foi por amor e em nome das obrigaes que tenho com o futuro de meu pas que concordei. Grande 
parte dessa obrigao como mulher de Kadir  ficar atenta s necessidades e crenas de seu pas adotivo.
      Deixe Zahra pensar sobre isso! Ela no permitiria que Zahra, ou qualquer outra pessoa, e muito menos o prprio Kadir, seguisse pensando que ela era alguma 
idiota dcil e obediente fascinada pelo falso deslumbramento do ttulo da famlia real. S algum muito superficial e sem essncia poderia se sentir intimidada pela 
amante do marido. Natalia possua uma agenda prpria como mulher do futuro rei, e certamente no fora pelo ttulo real que se casara com Kadir.
      - Voc no precisa me dizer que o seu casamento com Kadir no foi escolha dele - Zahra interrompeu irritada. - Realmente pensa que eu no sei por que Kadir 
no lhe procurou na noite passada? - Agora foi a vez de Natalia respirar fundo. - Voc fala com muita habilidade sobre as praticidades de seu casamento arranjado, 
mas no consegue me enganar. Eu posso ver no fundo do seu corao o que esconde Voc deseja Kadir como homem.
      Natalia recebeu as palavras como se fossem agresses fsicas. No eram verdade. No poderiam ser! Ela no deixaria que fossem. Kadir no significava nada para 
ela. No? Ento por que se comportou daquela forma em Veneza?
      Aquilo no tinha nada a ver com o fato de desejar Kadir. Ela apenas...
      Ela apenas o qu... desejava sexo?
      Sim!
      No! Se isso fosse verdade, ento por que teria passado tanto tempo, enquanto era livre, em uma vida de celibato?
      Ela se mantivera sem sexo por muito tempo, isso era tudo. Kadir poderia ter sido qualquer um.
      Mentirosa. No  verdade que no momento em que o viu se sentiu...
      - Eu no sinto nada - Natalia negou furiosamente. - Nada. - E continuava no sentindo nada por ele, apesar do que Zahra tentava insinuar.
      - Voc realmente acha que eu no saberia? - Zahra continuou a provoc-la. - Kadir e eu rimos muito disso tudo. Kadir tem uma funo a desempenhar,  claro, 
mas  para mim que ele reserva a verdadeira paixo. Eu estarei sentada ao seu lado quando finalmente for o soberano de Niroli e Hadiya.  meu destino ficar ao lado 
de Kadir, no o seu. Kadir  meu e eu nunca o deixarei. No deixarei que nada ou ningum se interponha entre ns, e  bom que voc se lembre disso.
      O que teria acontecido para que ela tivesse, aparentemente, desviado seus argumentos e se tornado to cida para atingi-la? A conversa tomou um caminho totalmente 
novo e conturbado, Natalia percebeu, lembrando o tom da voz de Zahra.
      Ao ouvir Zahra, Natalia se deu conta de que a atitude dela se parecia com o que a imprensa adorava chamar de "caadora". Mas talvez estivesse sendo injusta 
e tirando concluses precipitadas. Seria esse o comportamento normal de uma mulher oriental apaixonada? Se fosse, certamente contrastava com o seu jeito mais pragmtico 
de encarar a vida, Natalia admitiu. Zahra devia, com certeza, saber que no havia jeito de Kadir suceder ao trono de Hadiya. Afinal, eleja renunciara a ele. Zahra 
estava tentando acu-la, Natalia sups, e com certeza esse deveria ser um hbito usado para tentar intimidar as pessoas. Bem, ela teria de aprender, e Kadir tambm, 
que no se deixava amedrontar to facilmente. Muito pelo contrrio.
      -Voc  ainda mais tola se pensa que Kadir no v, assim como eu, que fingiu o tempo todo, que no fundo anseia por se entregar a ele - Zahra surpreendeu Natalia 
ao acus-la e por mudar o rumo da conversa outra vez. - Como voc  previsvel ao se apaixonar por ele. Eu disse a ele que isso aconteceria. Como poderia no acontecer 
com um homem como Kadir? Mas ele no quer o seu amor. Como poderia desejar-lhe se tem a mim? E sempre ter.  a mim que ele ama, Kadir nunca desistir de mim... 
nunca.
      Zahra se aproximou de Natalia e, antes que pudesse se afastar, segurou-a pelo brao. Suas unhas longas e pintadas deixaram o brao de Natalia marcado. - V0c 
entendeu? - Determinada, Natalia ignorou o fato de Zahra a estar segurando e se levantou.
      - Eu entendo que se no estiver pronta agora irei me atrasar para os meus compromissos - ela respondeu o mais delicadamente que pde.
      As coisas que Zahra falara eram completamente sem sentido. Como se ela fosse idiota o suficiente para se apaixonar por Kadir. Natalia era uma mulher madura, 
no uma garotinha com sonhos tolos. Se acreditasse em amor romntico, e Natalia no tinha certeza de que ele poderia existir, mesmo assim acreditava que um casal 
necessitava de muito mais para construir uma vida juntos do que simplesmente "se apaixonar", Eles precisavam, claro, da paixo que acompanhava o desejo sexual para 
construrem uma base verdadeira para uma relao longa, mas apenas o desejo sexual no seria capaz de manter uma relao e, certamente era o menos importante entre 
todas as coisas.
      
      - Eu quero falar com voc.
      - Bem, eu no quero falar com voc - Natalia revidou rapidamente, quando ele a seguiu at seu quarto, dispensando as damas de companhia com um gesto.
      -  sobre uma coisa que voc deixou mais do que clara hoje - Kadir argumentou, quando as damas se retiraram, fechando a porta e ficando a ss com ela no quarto.
      Enquanto caminhavam dos carros at o palcio, a noite caiu. Eles haviam acabado de chegar dos ltimos eventos formais do dia, onde, alm deles, tambm estavam 
presentes o irmo de Kadir, sua mulher e a famlia dela. Aporta de vidro que dava para o ptio ainda estava aberta e Natalia se colocou de p diante dela para sentir 
o cheiro de rosas no ar. O carro em que viajou tinha o aroma vulgar do perfume rabe de Zahra. Natalia podia senti-lo vindo de Kadir agora.
      - O que foi que eu disse? - ela o desafiou. - Sua amante interrompeu todas as vezes que tentei falar alguma coisa - ela no desejava deix-lo perceber o quanto 
estava irritada e humilhada com o modo como Zahra se intrometera toda vez que tentara usar as poucas palavras em rabe que tanto se esforara para aprender, de modo 
que pudesse saudar as crianas em sua lngua. Ao fazer isso, Zahra demonstraria sua insignificncia e reforaria a acusao de que era emocionalmente vulnervel 
a Kadir, coisa que no era. No era agora e nunca o seria. Nesse ponto, Zahra estava  vontade. Nesse ponto talvez, mas Natalia, em seu papel de mulher do prncipe 
herdeiro de Niroli, no pretendia continuar permitindo que fosse humilhada por Zahra, pela prpria segurana de Niroli.
      - Por que meter Zahra nisso? - Kadir reclamou com raiva. - Ela no tem nada a ver com isso. - Retornar para Hadiya com sua mulher e encontrar Zahra insistindo 
em se comportar como se ainda fossem amantes deixava Kadir completamente desconcertado. Ele pretendia conversar com ela sobre o comportamento que vinha adotando 
e lembrar de que a relao j havia acabado.
      - Ela tem tudo a ver com isso -- ela o contradisse - Voc pensa que me empurrando sua amante como acompanhante oficial  somente a mim que insulta mas est 
errado. O que voc fez insulta o trono de Niroli tambm, porque isso eleva sua amante a uma posio mais importante que a minha, sua mulher No era isso que o rei 
Giorgio tinha em mente quando concordou que eu lhe acompanhasse at aqui.
      - Voc se atreve a me dizer como devo me comportar? Voc ousa questionar minhas decises em questes protocolares de diplomacia? - Kadir estava queimando de 
raiva, Natalia reconheceu. - Se Zahra  minha amante.
      - Se? No h "se" nessa situao, Kadir, ou no? Ela me disse essa manh exatamente o que significa para voc. Sua amante acha que tem o direito de me passar 
ensinamentos sobre como melhor agir na condio de sua mulher e em como causar uma melhor impresso em voc e no povo de Hadiya. Apesar de voc no estar se tornando 
rei de Hadiya, mas de Niroli. E me parece que ela corre o mesmo risco que voc, acreditando que Niroli  um tipo de extenso de Hadiya, simplesmente porque voc 
deseja que assim seja. Sua palavra no  lei, Kadir, e eu suponho que voc j tenha descoberto isso, mas por no conseguir aceitar, tenha culpado sua me por sua 
prpria incapacidade de se adaptar para se tornar o governante de que Hadiya precisa. Se voc no tomar cuidado, cometer o mesmo erro em Niroli. Quanto mais tenho 
informaes sobre sua me, mais gostaria de t-la conhecido. Ela deve ter sido muito corajosa, assim como deve ter ficado muito desapontada e triste com voc ao 
perceber que o filho pelo qual tanto fez para educar e proteger tinha uma viso to limitada e cheia de desiluso e amargura que no lhe permitia ver a adorvel 
e encantadora pessoa que ela era.
      - Porque voc...
      Kadir olhava para ela como se desejasse segur-la pelo pescoo e enforc-la, Natalia percebeu, mas no se intimidou. Se ele no tinha a decncia de proteger 
seu casamento e sua mulher do veneno de sua amante ento que agentasse as conseqncias. Ela olhou para ele. Natalia podia ver a expresso implacvel e o brilho 
do dio em seus olhos.
      - Voc odeia isso, no odeia? - ela o desafiou antes que pudesse terminar. - Voc odeia ter se casado comigo. Bem, s pode culpar a si mesmo - Natalia podia 
ver o mau humor transparecendo atravs de seu olhar cor de jade.
      - Eu devo culpar a sua imoralidade?
      Ele tinha o mesmo hbito que sua amante, mudar de assunto para se beneficiar. Natalia reconheceu a estratgia, mas no se renderia a essa ttica.
      - O fato de voc ter resolvido me considerar imoral no faz com que eu me sinta assim. O que voc tem que culpar  a sua insistncia em se casar comigo quando 
j havia me julgado no ser merecedora de ser sua mulher. Voc est com raiva de mim, mas na verdade, sua raiva deveria ser de si mesmo.
      - Como  tpico das mulheres, usarem as palavras com a mesma falsidade com que usam o corpo.
      - A falsidade est na sua imaginao - Natalia rejeitou a acusao.
      - Voc se esqueceu de como se entregou de forma libertina a mim, uma mulher s vsperas do casamento?
      - O meu desejo fsico por voc no influencia o meu comportamento ao me casar com voc. Como mulher solteira que era, eu tinha direito de fazer com o meu corpo 
o que bem entendesse, e, alm disso...
      Natalia conseguiu se conter a tempo, antes que confessasse que ele fora o nico homem a quem se entregara depois de muito tempo.
      - E como seu futuro marido, eu tenho o direito de querer que voc venha para o nosso casamento livre de qualquer vestgio de outro homem. Eu no serei trado 
do modo como minha me...
      - Mas no h outro homem! E voc sempre retorna ao que aconteceu com sua me, no ? - Natalia retrucou. - Voc no pode pensar no futuro, Kadir se continuar 
preso ao passado. Sua me tinha 18 anos - ela disse com raiva, j defendendo a jovem moa que deve ter sofrido terrivelmente. - Um homem de verdade, um filho amado, 
certamente sentiria compaixo pela me e tentaria entender como ela se sentiu.
      - Mas no era sobre a me de Kadir que Natalia queria discutir. - Voc fala da minha suposta imoralidade Isso  uma hipocrisia quando voc mesmo tem uma amante. 
E a propsito - ela acrescentou -, da prxima vez que quiser discutir meus erros com a sua amante, eu gostaria que voc lhe informasse que ns j dormimos juntos.
      - O que voc quer dizer com da prxima vez? Do que voc est falando? Conte-me!
      - Contar a voc? Sim, eu contarei! Zahra no se conteve e me disse que sabe que passei a noite de ontem sozinha. Voc no  a pessoa certa para falar comigo 
sobre moralidade. E no, eu no desci ao nvel dela para estragar o prazer que estava tendo ao relatar o quanto voc a acha maravilhosa na cama e ao contar o que 
eu j sabia: que, pelos meus padres, o conceito de prazer dela no  publicvel.
      -- Voc deve ter entendido mal - Kadir a interrompeu sumariamente. - Eu no passei a noite de ontem com Zahra - Kadir no podia acreditar no que estava admitindo, 
e no sabia por que estava fazendo isso. -Ah, por favor, voc no espera realmente que eu acredite nisso, espera? Ignorando-a, Kadir continuou:
      - Eu passei a noite no deserto. Eu e meu irmo visitamos o tmulo de nossa me juntos - a voz dele vacilou. - Era seu desejo que fosse enterrada com os pais. 
Ns passamos a noite l fazendo oraes.
      Alguma coisa, vergonha talvez, quem sabe arrependimento, lhe deixou desconsertada, mas ela no permitiu que isso transparecesse.
      - Mas voc no pode negar que ela  sua amante Kadir arregalou os olhos.
      - Voc age como se estivesse com cimes, como uma possessiva mulher tradicional, em vez de algum que concordou com um casamento reconhecidamente arranjado.
      A crtica de Kadir era muito parecida com a que Zahra fizera, to bvia que ficava claro para Natalia que eles haviam conversado sobre ela e seus supostos 
"sentimentos" por ele. O que teriam conversado? E onde? Na intimidade da cama que dividiram? E no havia dvida de que Kadir havia feito sexo com Zahra... O sofrimento 
a invadia e a deixava to chocada que Natalia foi incapaz de negar ou confirmar. Se ela tivesse bom senso abandonaria essa discusso antes que ficasse totalmente 
fora de controle, um alerta interior interno lhe dizia, mas ela se recusava a ouvi-lo. Seu orgulho estava ferido e exigia uma reparao.
      - Minhas preocupaes so as mesmas que as suas - ela disse, de forma furiosa. - Apenas com a sade. Voc no espera que eu divida a cama com voc enquanto 
est se deitando com outra mulher.
      Ela viu, pela expresso dos olhos dele, que Kadir foi pego de surpresa, mas rapidamente se recomps, rebatendo friamente:
      - Eu no lembro de ter lhe pedido para dividir a cama comigo.
      - timo, porque apesar de Zahra consider-lo um timo amante... - ela comeou a insult-lo.
      - Voc no considera?
      Como ele conseguira chegar to perto sem que ela percebesse? Muito perto, ela reconheceu de modo constrangedor.
      - No, no considero! Mas  claro que minha experincia sexual com voc no pode se comparar com a de Zahra, pode?
      O que ela estava fazendo? O que estava falando? Deveria se jogar do penhasco mais alto de Niroli. Seu comportamento era completamente autodestrutivo, Natalia 
reconheceu.
      - Se isso significa um pedido para eu remediar essa disparidade... - Kadir comeou.
      - No, no  - O que ela acabara de fazer? Como era tola!
      -  claro que uma mulher como voc no fica muito tempo sem ter vontade de sentir um homem entre suas pernas.
      Ela no merecia um insulto to cruel e mordaz.
      - Uma mulher como eu? - Os olhos de Natalia estavam soltando fasca. - Voc no sabe nada sobre mulheres como eu. Como poderia? Zahra  a imagem que voc tem 
de como uma mulher deveria ser. Tudo nela  falso, os cabelos tingidos, a falsa submisso, os orgasmos fingidos - ela jogou tudo na cara dele e, de repente, parou, 
como se alguma coisa lhe dissesse que fora longe demais. - Fique longe de mim - ela protestou apreensiva, afastando-se dele. - No me toque.
      - Sou o seu marido. Eu tenho o direito - Kadir a fez lembrar delicadamente.
      - Fique longe de mim-Natalia repetiu.-Voc fede ao cheiro dela - ela disse. - Isso me d nojo
      - Do qu? Com cimes?
      Isso outra vez, a acusao que fazia seu corao disparar.
      - No! Por que eu deveria sentir cimes de uma relao que no desejo? E que nunca desejarei, mesmo que voc se ajoelhe. Eu sou sua mulher e  minha obrigao 
fazer amor com voc.
      - Sua obrigao? Assim como era sua obrigao em Veneza? - ele a insultou novamente.
      Natalia se deu conta de que ele a estava cercando como um tubaro cerca sua presa. Mesmo que o ar da sala parecesse pesado e denso com a implacvel promessa, 
nada o faria recuar. Ela o havia pressionado demais, Natalia admitiu, fora perigosamente longe demais, e para qu? Porque Zahra a havia perturbado?
      - Ento vamos ver... outra vez... como voc  boa em separar obrigao de desejo, vamos? - Kadir sugeriu delicadamente.
      Nenhuma mulher jamais o excitara e enfurecera daquele modo, de forma to violenta, consumindo-o a tal ponto de querer faz-la assumir todas as mentiras com 
as quais ferira seu orgulho. Agora, a nica coisa que poderia abrandar a sua humilhao seria ver as lgrimas de arrependimento e vergonha escorrendo seu rosto e 
lhe implorando para perdo-la. E, em seguida, implorando para ser possuda por ele. 
      - Voc ter que retirar cada um desses insultos at final da noite - ele lhe avisou com brutalidade, enquanto se aproximava dela.
      
      
      CAPITULO NOVE
      
      Natalia estava imvel na enorme cama, seu corao visivelmente disparado e pesado, pulsava sob o corpo nu. Ela no se humilharia tentando resistir. Fisicamente 
ele era mais forte, e tudo o que ela desejava naquele momento era ser deixada em paz, mesmo que para isso tivesse de permitir que ele saciasse seu desejo primeiro.
      Kadir podia sentir o corao dela batendo por trs das costelas. Sob a luz do abajur, a pele de Natalia era da cor de mel. S de v-la, ele relembrava as imagens 
confusas da ltima vez em que a vira to intimamente. Imagens que ele, at agora, no sabia que estavam registradas em sua memria.
      Ela o provocara de tal forma que ele no poderia deixar passar sem resposta. E era por isso que estava agindo assim. S por esse motivo. Nenhum outro. Ela 
mesma no significava nada para ele. Kadir passou as mos pelo corpo dela, sem pena de expor sua fraqueza Natalia percebeu. O toque era delicado, gentil e astucioso. 
Ele lhe acariciou o pescoo, os ombros, a curva da cintura e a concavidade da barriga, para em seguida comear tudo outra vez. Ela precisava urgentemente de ar, 
mas no deixou que ele percebesse para no interpretar aquela necessidade como um sinal de fraqueza Kadir passava a ponta dos dedos por suas orelhas. Um arrepio 
lhe percorreu o corpo, e Natalia preferiu acreditar que era por causa do ar fresco que vinha do ptio, nada mais que isso. E aquela densa conscincia sensual que 
se espalhava lentamente por seu corpo? No era nada. Nada importante. Ela poderia facilmente fingir que no estava sentindo nada. No poderia? Sentia a boca de Kadir 
tocando sua pele, a ponta da lngua explorando os contornos de sua orelha. Por que ele precisava fazer aquilo com ela? Como ele sabia...? Todo o corpo tremia como 
se tivesse sido eletrificado ao tentar lutar contra o prprio prazer, sem sucesso. Ela esticou as mos para tentar afast-lo, mas ele as segurou, forando-as contra 
a cama. Com os pulsos de Natalia em suas mos, Kadir ficou com a boca livre para torturar o corpo agonizante,  medida que percorria eroticamente os pontos sensveis 
do corpo dela, indo de um ponto a outro de forma torturante, cada toque provocava uma contrao entre as pernas de Natalia.
      Quando a lngua tocou o bico do seio j enrijecido, ela gritou como se estivesse agonizando, implorando para que parasse.
      - Voc tem certeza? Voc preferiria que eu fizesse isso? - Ele a torturava, passando a lngua nos bicos dos seios, soltando seus pulsos para que pudesse segurar 
os seios e massage-los, fazendo com que o corpo de Natalia respondesse ao estmulo.
      Lgrimas de desespero inundaram os olhos dela. Como poderia deixar isso acontecer to facilmente? Ela no era uma menina para se deixar dominar pelas necessidades 
do prprio corpo. Ela j se sentira assim antes.
      J? Ou a verdade era que nunca experimentara uma coisa como aquela antes? No! Ela no devia pensar assim.
      Se essa fosse a verdade, ento no poderia e nem deveria admitir. Alm de no querer que isso se repetisse, Natalia tentou se convencer enquanto lutava desesperadamente 
para manter a distncia e impedir a prpria derrota. Nunca!
      
      Ele deveria estar celebrando a vitria, se exultando por intimidar Natalia fisicamente com suas habilidades. Percebia que ela estava perdendo o autocontrole 
e sendo forada a se submeter aos seus desejos. S que ele no estava celebrando, Kadir se deu conta. No poderia fazer isso porque a cada toque, investida, beijo, 
comeava a perder o controle. Ele no estava mais controlando seu desejo sexual, mas sendo controlado por ele. Como se fossem finalmente dois poderes opostos e equilibrados, 
tudo isso servia de suporte para a estrutura que provocava os desejos dela e sua prpria fria era o contrapeso entre eles. Se isso se rompesse, ele cairia no abismo 
do prprio desejo que sentia por ela. Precisava urgentemente parar, abandonar a investida, deixando incompleta a punio por ter sido ofendido, mesmo que isso significasse 
no saborear a completa entrega de Natalia  medida que ela implorava para ser possuda por ele, mas ele se conteve. Ela nunca deveria saber como ele se sentia, 
desejando-a ardentemente. Isso rompia com todas as suas normas, mantidas cuidadosamente para proteg-lo. As normas que criara ao crescer cercado por um pai que o 
rejeitava e por uma me que parecia no se importar com aquilo, o primeiro amor de juventude em quem depositara sua confiana e sua adorao incondicional e pelo 
qual, em troca, recebera traio. Essas coisas lhe ensinaram a no se deixar guiar pelas emoes e a no confiar naqueles que tentassem tocar essas emoes.
      Agora, inesperadamente, tudo aquilo corria o risco de ser minado por uma mulher que tinha o poder de lhe provocar tanta raiva, de feri-lo de tal forma que 
s pensava em for-la a se sacrificar de todas as formas para pagar por aquele pecado. Mas de alguma forma tudo se voltava contra ele.
      Deveria parar, antes que fosse tarde demais. Agora, depois de apenas mais um toque, mais um beijo, apenas mais uma emoo imaginando a reao, do prazer das 
mos dela em seu corpo, e ento...
      Natalia se agarrou a ele, suas unhas cravaram a carne macia, jogando a cabea para trs, enquanto se curvava em um sacrifcio sensual.
      O aroma dela ficaria impregnado nele para sempre, s vezes constante, outras alterado a cada respirao dela, uma hora frio e distante, outra quente e carregado 
de desejo. Isso preenchia os seus sentidos, reforando o gosto de Natalia quando Kadir provou de sua umidade to ntima, provocando-lhe uma violenta reao no corpo 
inteiro. Agora, sua carne pulsava involuntariamente, seu corpo se abria ao toque dos dedos de Kadir. Ele poderia faz-lo j, parar e ir embora deixando-a saber o 
preo que deveria pagar pelo o que disse. Ele poderia fazer isso, mas no conseguia suportar os movimentos febris do corpo de Natalia o desejo que antes estava sob 
controle tornou-se selvagem, um desejo intenso que no poderia ser silenciado ou ignorado.
      
      J teria vivenciado coisa parecida? Se tivesse no se recordava, Natalia pensou, enquanto tremia com os calafrios do orgasmo e a reao simultnea de seu corpo. 
Jamais desejara nada parecido, isso a estava matando, destruindo, levando para um lugar de onde temia nunca mais conseguir voltar. Ela ouviu um gemido. Dela prpria?
      No. Era a voz mscula de Kadir, um gemido de prazer que ela reconheceu ao ser penetrada, por completo, satisfazendo momentaneamente a insacivel contrao 
de seus msculos  medida que se agarrava avidamente a ele, relaxando de forma obediente quando Kadir assumiu o controle dos movimentos. O prazer que repentinamente 
tomara conta de seu corpo agora se transformara em paz.
      A respirao de Kadir era uma splica rude de comando e entrega em seus ouvidos, o corpo de Natalia se contraa em volta do dele. Ela percebeu que ele comeava 
a se afastar. Natalia se agarrou a ele instintivamente, irresistivelmente, at sentir o calor e a pulsao mida dentro de si. Tarde demais... tarde demais! Ele 
se deixara ir longe demais. Mas Kadir no percebia nenhum sinal de triunfo no olhar de Natalia.
      
      
      CAPITULO DEZ
      
      No havia como negar que Natalia possua um jeito especial para lidar com o povo e que este respondia muito bem, Kadir admitiu, ao observ-la a distncia enquanto 
agradecia s crianas de uma escola que se amontoavam no ptio do palcio de Niroli para lhes dar as boas-vindas, quando retornaram. Sua me possua o mesmo talento. 
Sua me!
      Kadir afastou os pensamentos, como se estes pudessem feri-lo fisicamente. Natalia no tinha o direito de falar sobre sua me com ele como fizera. Ela no sabia 
nada sobre o relacionamento deles ou sobre sua infncia. E quanto  humilhao de tentar mostrar seu valor ao marido de sua me, o sheik, que o rejeitava por completo. 
O que ele tinha de provar? Afinal, ele optara por entregar Hadiya aos cuidados do irmo.
      Kadir no dormiu com Natalia nas ltimas duas noites que passaram em Hadiya. Para demonstrar a ela, ou a si mesmo, que controlava seus desejos, e no o contrrio?
      - Meu filho, senti sua falta!  bom t-lo de volta - as boas-vindas do rei Giorgio foram calorosas e emocionadas durante uma recepo formal que celebrava 
a chegada do casal. Teria sido sua impresso ou acerto de mo do pai realmente no estava mais to firme? Kadir sentiu uma inesperada pontada de emoo ao olhar 
para o velho homem. No havia nada alm do sangue, a uni-los; um passado, uma histria, mas assim mesmo as palavras do pai o emocionaram.
      - Ns temos tantos anos para recuperar - o rei dizia. - Possa Deus me agraciar com tempo suficiente, o que mais desejo agora, Kadir,  poder segurar seu filho 
em meus braos. O futuro rei de Niroli, nascido do meu sangue e do sangue da ilha, atravs de Natalia.
      O rei olhou para o lugar onde Natalia ainda conversava com as crianas.
      - Nem sempre os reis podem se casar com quem gostariam, mas com Natalia voc tem uma mulher perfeitamente compatvel com o seu papel. Quando olhei para ela, 
vislumbrei tanto a delicadeza de minha primeira mulher, a rainha Sophia, quanto da sua me. Ela possui qualidades que pertenciam s duas.
      Uma das crianas que cercavam Natalia foi acidentalmente empurrada por outra e perdeu o equilbrio. Kadir percebeu quando Natalia viu o ocorrido e agiu imediatamente, 
amparando o pequenino e lhe dando um abrao, enquanto conversava com a me da criana. Imediatamente, as lgrimas da criana se transformaram em um sorriso, e ficou 
bvio para Kadir o quanto ela se sentia confortvel nos braos de Natalia e como ela lidara com facilidade com uma situao que poderia se transformar em um acidente. 
Mas no era a exibio de suas habilidades naturais de mulher que causavam aquela pontada de sofrimento em seu corao, ou era? Uma sensao de algo que se abria 
sob presso em seu peito e o preenchia com um sentimento desconhecido. Era um sofrimento fsico acompanhado de uma exploso de melancolia, eram sentimentos de perda, 
solido e raiva que se antagonizavam e provocavam uma imensa saudade.
      Ele no precisava se perguntar o que estava acontecendo. Sabia muito bem que a proteo que mantinha suas emoes sob controle havia se rompido. Por causa 
de Natalia? Por ela estar fazendo com que ele visse e sentisse coisas sobre o seu prprio comportamento e reaes que no poderia ignorar? Ele no queria isso, no 
precisava disso e encontraria um modo de impedir que isso se repetisse.
      - Enquanto voc esteve em Hadiya, nosso ministro providenciou os preparativos para voc ascender ao trono formalmente.
      Apesar de estar evitando olhar para ele, Natalia percebeu o momento em que Kadir deixou o ptio na companhia do pai. Ela praticamente podia sentir o espao 
vazio deixado por ele, assim como sentia o vazio ao seu lado na cama  noite. Ser que ele havia dormido com Zahra em Hadiya quando a deixara sozinha? O cime tomou 
conta dela violentamente, provocando-lhe enjo.
      O que estava acontecendo com ela? As coisas no deveriam ser assim. Ela e Kadir deveriam ter uma relao calma, adulta, como uma relao comercial baseada 
em respeito e conscincia, com o desejo mtuo de alcanarem um objetivo comum; um relacionamento no qual houvesse confiana e a certeza de que nada externo pudesse 
prejudic-los. O casamento deles deveria ser do tipo em que ambos mantivessem o controle de suas prprias emoes e, em ltima anlise, suas liberdades sexuais, 
desde que fossem discretos. Ento, como isso teria acontecido, como poderia estar tomada pelo cime s de pensar em Kadir olhando com desejo para outra mulher? A 
acusao de Zahra estava certa? Ela teria se apaixonado por ele? Se fosse isso, no era de se estranhar que estivesse se sentindo to tonta e enjoada.
      
      - A quantia que recebemos como doao do prncipe Marco e sua mulher  suficiente para abastecer com o que h de mais moderno a unidade neonatal e atrair especialistas 
para este setor do hospital.
      O jovem administrador mostrava orgulhoso para Kadir e Natalia a nova ala aberta no Hospital Maternidade de Niroli, que estavam visitando.
      Enquanto ouviam as explicaes do administrador, Natalia arriscou uma olhada para Kadir, se perguntando como ele estava reagindo ao ouvir falar do neto mais 
velho do rei Giorgio, que ele ainda no conhecia e que assumiria o trono no lugar do rei quando este abdicasse. Contudo, ela no percebeu qualquer hostilidade na 
expresso concentrada de Kadir ao ouvir as explicaes do administrador. No, era o sexo feminino que suscitava sua raiva, ela admitiu, enquanto dava um pequeno 
bocejo, no por estar entediada, mas por estar se sentindo cansada por algum motivo.
      Natalia estava relutante em admitir que Kadir estivesse desempenhando o seu papel com mais sensibilidade e diplomacia do que esperava. Em todos os momentos, 
nos ltimos dias agitados de visitas s organizaes governamentais, fbricas, vinhedos e outras instituies, ele estivera atento, respeitoso e demonstrava orgulho 
pelos assuntos ligados ao pas. Em momento algum fez qualquer comentrio sobre Hadiya ou comparaes entre os dois pases. E ainda demonstrou o tipo de rei que seria 
fazendo perguntas inteligentes e dando respostas rpidas e diretas s questes que lhe eram apresentadas, quebrando assim as barreiras e reservas impostas a ele 
por ser um estrangeiro.
      - Ele  a continuao do rei Giorgio e algo mais - Natalia ouviu um dos lderes do vilarejo dizer. -  um verdadeiro homem e no teme dizer o que pensa. Gravem 
minhas palavras, ele governar Niroli como deve e precisa ser governada.
      
      - E os jovens esto dizendo que ser uma nova era para eles e que no sero mais deixados no passado quando o novo rei assumir o trono. O rei Giorgio foi um 
bom rei, mas ele  o rei de nossos avs e bisavs. Est ficando velho e no circula mais entre o povo como o prncipe Kadir est fazendo. - Uma das jovens empregadas 
estava contando a Natalia animadamente, enquanto a ajudava a retirar o traje formal que usou durante a cerimnia em que Kadir foi apresentado aos cidados mais influentes 
de Niroli e a algumas personalidades da comunidade internacional que possuam propriedades ali.
      Kadir no precisou da ajuda dela para falar com essas pessoas nem para persuadi-los de que, no futuro, seriam privilegiados em seus investimentos e participaes, 
Natalia reconheceu. Ela lamentou um pouco ao perceber que seu papel estava diminuindo numa proporo direta  exposio das habilidades de liderana de Kadir. Afinal, 
o nico objetivo em aceitar o casamento com Kadir fora a crena de que poderia fazer muita coisa por seu pas. Agora, parecia que Kadir no precisava mais de sua 
ajuda, que era perfeitamente capaz de conquistar o amor e o respeito das pessoas por si s.
      E como se ainda no bastasse, a julgar pelo pouco das conversas que ouvira, o evento dessa noite contara com um grande nmero de promessas feitas pelos mais 
abastados. O intuito era ajudar Kadir com seus planos de levar a ilha a um tipo de futuro que beneficiaria no apenas quem investisse seu dinheiro nisso, mas tambm 
o prprio povo de Niroli.
      Natalia no se surpreendeu quando Kadir foi ovacionado depois de seu discurso.
      - Todos esto comentando como somos sortudos por termos o belo prncipe herdeiro - sua dama de companhia confessou, ao ajud-la com as roupas. - Eles dizem 
que vocs tero lindos filhos juntos.
      O prncipe podia ser bonito, mas o que ela mais desejava era um casamento verdadeiro. Sua nova vida podia ser bastante ocupada, mas nesse momento estava se 
sentindo confinada e impaciente, admitiu Natalia ao agradecer e dispensar a empregada. Por invejar Kadir pelos desafios que tinha pela frente? Por ter visto claramente 
esta noite a projeo do futuro to bem descrita por ele aos ouvintes e por desejar ser sua parceira nesses planos? Sua verdadeira parceira em todos os sentidos?
      Isso talvez pudesse ter acontecido, se ele no a tivesse julgado daquela forma. Agora, claro, ele no confiava nela. Poderiam ter feito tanta coisa juntos 
Natalia afastou a tristeza que lhe trouxe lgrimas aos olhos e entrou no banheiro.
      Esta noite, como sempre fazia desde que voltaram para Niroli, Kadir sairia de seu quarto de vestir e se juntaria a ela na grande cama do casal, mas no a tocaria. 
No agora. No at que ela contasse que a intimidade que vivenciaram resultar em um beb Natalia colocou a mo sobre a barriga ainda lisa. A primeira suspeita veio 
quando retornaram de Hadiya, mas teve de esperar at conseguir consultar o velho mdico da famlia, que era amigo ntimo de seu av e pedir segredo at que todas 
as suspeitas estivessem confirmadas. O exame de gravidez confirmava o que j suspeitava, ela daria  luz um filho de Kadir. A data tambm confirmava que esta criana, 
seu filho ou filha, no fora concebido em Hadiya, mas em Veneza. Mas como, se Kadir havia usado preservativo? Era uma pergunta que dificilmente faria ao seu mdico. 
Tudo o que podia crer era que o preservativo havia falhado. Ela se recordava de ter lido em algum lugar que eles no eram cem por cento eficazes.
      Talvez por causa de suas preocupaes e devaneios, Natalia tenha se demorado um pouco mais do que pretendia com o resultado do exame no banheiro e, quando 
voltou, Kadir j estava no quarto.
      Kadir dormia nu, e ela sabia que era por causa disso e seu corao disparava ao tentar no olhar o reflexo que o abajur produzia sobre seus ombros e trax 
fortes quando se recostava nos travesseiros para ler algum documento, e no o fato de estar escondendo dele algo que tinha todo direito de saber.
      Kadir observou Natalia se aproximar da cama. Ela usava um robe de seda que, mesmo ocultando as curvas femininas de seu corpo, provocava a imaginao dele.
      - Eu tenho que agradecer a voc pelo papel que desempenhou no sucesso da recepo de hoje  noite - ele disse, quando ela se sentou na beirada da cama de costas 
para ele, tirando discretamente o robe, antes de deitar.
      - Eu s estava cumprindo minha obrigao - Natalia respondeu.
      Imediatamente a boca de Kadir se contraiu e ele apoiou os papis que estava segurando.
      - Eu gostaria de aconselh-la a evitar o papel de r - ele disse. - No combina com voc. Voc  uma mulher extremamente inteligente e conhecedora dos assuntos 
mundiais e com um papel muito importante no futuro de Niroli.
      Natalia o encarou, surpresa por ter sido elogiada por ele.
      
      Kadir era um homem orgulhoso, no era fcil para ele admitir que tivesse cometido qualquer erro de julgamento, muito menos um daquela proporo, mas era um 
homem formidvel e justo. Ele vira Natalia interagir com os convidados durante a recepo formal e percebera o quanto ela seria um trunfo valioso para ele e para 
o futuro de Niroli. Ficara impressionado com o modo como seus papis funcionaram harmonicamente de forma separada, graas a Natalia. Ele a observara conversando 
com cada um, alguns deles homens, e em momento algum sua linguagem corporal era menos do que confiante e profissional. Ela no flertou ou seduziu, no usou a sensualidade 
bvia de seu corpo ou sua beleza para atrair a ateno. Em vez disso, ela os cativou com sua inteligncia, ganhando o respeito dos presentes com aquele ar real tranqilo 
e distante. Era uma excelente anfitri. Que todos estavam encantados com ela no havia dvidas, que deveriam invej-lo por sua mulher ser to franca e clara, ele 
sempre soubera. Mas que ela, a sua maneira, soubesse exatamente como assegurar que fosse tratada com o respeito que sua posio exigia, isso era surpresa para ele. 
Mesmo que ningum a tivesse apresentado como futura rainha de Niroli, todos teriam suposto, por sua majestosa cordialidade. Natalia possua aquela rara habilidade 
de ser autntica consigo mesma e ainda assim satisfazer a expectativa dos outros. Ele olhou para ela quando se deitou ao seu lado, totalmente ciente de seu desejo 
de traz-la para junto de seu corpo. Eles eram casados, seus futuros estavam traados, ele a desejava e sabia que poderia estimul-la a desej-lo tambm Talvez fosse 
nisso que precisasse se concentrar, em vez de ficar pensando no passado dela.
      Natalia se esticou para apagar a luz de sua cabeceira e ficou tensa quando Kadir fez o mesmo.
      - Eu no quero atrapalhar a sua leitura - ela comentou delicadamente.
      - A leitura pode esperar. Agora eu tenho obrigaes mais prazerosas - Kadir informou de modo sensual, pegando-a de surpresa ao se aproximar.
      No teria sido a infeliz e mal-amada Catarina de Medici que se recusara desesperadamente a contar ao marido que j estava grvida por tanto desejar continuar 
tendo intimidade com ele e para mant-lo em sua cama e longe de sua amante? Natalia se sentiu culpada ao perceber seu corpo se inundando de prazer ao ser tocada 
intimamente por Kadir.
      - Talvez eu devesse agradecer ao destino por ter me dado uma mulher to sensvel  paixo - ele murmurou.
      O problema  que no era mais simplesmente a atrao fsica que ele despertava nela, Natalia admitiu, ao tremer de prazer diante das carcias sensuais que 
Kadir fazia em sua pele nua com a ponta dos dedos.
      - Natalia...
      Ela se surpreendeu ao sentir o calor do hlito dele to prximo aos seus lbios, e ficou mais surpresa ainda ao perceber que ele iria beij-la. Afinal, a intimidade 
de compartilhar beijos no era algo comum na relao deles. A doura e o desejo de beijos famintos eram tpicos dos amantes, e eles no eram e nem poderiam ser amantes. 
Mesmo que seus lbios se abrissem em suspiro e em seguida se suavizassem diante do entusiasmo de Kadir. Como era fcil abra-lo agora e fingir que isso era um novo 
comeo para eles, uma chance para comearem outra vez. To fcil e to idiota, mas mesmo assim ela no conseguia parar de se derreter em seus braos  medida que 
o beijo se intensificava lentamente, uma explorao magistral de prazer que deixava o corao de Natalia disparado.
      - Natalia... Minha mulher... - Kadir sussurrava delicadamente contra os lbios dela, enquanto enfiava os dedos por seus cabelos, segurando-a firme embaixo 
dele.
      - Minha mulher... Minha rainha... - Ele a beijava lenta e demoradamente, fazendo-a tremer s de pensar no que estava por vir. Ele beijou o canto de sua boca 
e contornou os lbios com a ponta da lngua.
      - Seu perfume est permanentemente gravado em meus sentidos, como o perfume da vida. Eu o inspiro com todo flego at que esteja completamente preenchido com 
sua lembrana, mas hoje voc no  uma lembrana, voc  uma realidade... - A lngua dele forou a frgil barreira imposta pelos lbios dela, apoderando-se deliberadamente 
do que estava por trs acariciando com sua prpria lngua a boca de Natalia, at que ela comeasse a corresponder.
      Natalia sentia a cabea rodar. Isso era diferente de toda a experincia sexual j vivenciada por ela. Era nico, devastador, possuidor... condenando-a a ser 
dele. - Muitos, na recepo de hoje, deixaram claro que esperam que sejamos rpidos para providenciar um novo herdeiro para Niroli, mas ningum  mais persuasivo 
que meu pai - Kadir lhe contou. - Outro dia mesmo, ele me lembrou que pode no ter muito tempo para...
      Natalia ficou gelada ao ouvir Kadir e percebeu o verdadeiro motivo pelo qual ele comeara a seduzi-la daquela forma.
      Estava claro que ele s estava fazendo sexo com ela porque era sua obrigao faz-lo, e ela seria uma idiota se pensasse em qualquer outro motivo. Por que 
ser que ela ainda tentava se enganar? Ela respondera s carcias dele e o recebera em seus braos como urna mulher acolhe o homem que ama. Afinal, Zahra estaria 
certa? Ela teria visto o que Natalia se recusava a ver?
      - O que  isso? - Kadir estava lhe perguntando.
      - O que h de errado?
      Ela no suportaria que ele desconfiasse da verdade e percebesse o quanto havia sido tola. Tolerar o desprezo dele j era duro o suficiente. Ela no queria 
ter de suportar o peso de sua piedade tambm.
      - Nada - ela disse de forma distrada. - Eu estou certa de que o rei Giorgio adoraria saber de sua dedicao a suas obrigaes.
      Ela estava zombando dele, Kadir logo percebeu enfurecido. Ser que imaginava que, ao toc-la e abra-la agora a nica obrigao que estava cumprindo era a 
de demonstrar o quanto a desejava? Assim como outro homem que a tenha desejado e possudo antes dele. Homens a quem tenha amado? Ela pensava em algum deles quando 
ele a tomava em seus braos assim como sua me pensava em seu amante e no em seu marido, secretamente desejando aquele amante enquanto obedecia as "regras" impostas 
a ela por seu casamento real? Todo prncipe com um reino a herdar vivenciava a mesma amargura que sentia ao pensar que era apenas tolerado, aturado pela mulher com 
quem era casado apenas pela posio que ocupava? Mas o que ele realmente queria? J tinha 40 anos, no era mais um menino. Havia muito tempo se tornara ctico com 
relao s coisas do "amor".
      Por que estava experimentando esses sentimentos contraditrios que o empurravam em direes completamente opostas? Para ele, no era necessrio dividir qualquer 
tipo de intimidade emocional com Nata" lia, e, por isso, no fazia sentido estar sentindo o que sentia nesse momento. Talvez no, mas deveria dispensar lealdade 
e fidelidade absolutas a sua mulher. Ele precisava ser capaz de confiar no valor moral dela principalmente por saber das presses enfrentadas em suas posies, e 
seria um tolo se no reconhecesse que aquela mulher que se entregara a ele por mera loucura no tinha esse valor moral. No era por ele que precisava lembrar isso, 
mas por sua posio como futuro rei de Niroli. Se soubesse que Natalia no era confivel, ento tambm saberia que ela deveria ser moralmente policiada para garantir 
que no trouxesse nenhuma desgraa para a Coroa e um filho bastardo para o palcio. Ao ceder a esse desejo, no estaria policiando esses padres de conduta, e isso 
o inclua. Tentar se convencer de que estava errado sobre ela era o pior tipo de submisso aos desejos para um homem sua posio, e no deveria fazer isso. Irritado, 
ele venceu os sentimentos indesejveis e desnecessrios e surgiam sabe-se l de onde para desafiar a realidade de seu relacionamento.
      - Eu posso lhe garantir que ningum ficar mais feliz em abandonar essa dedicao do que eu - ele informou a Natalia de modo grosseiro. - No pode realmente 
pensar que tenho algum desejo verdadeiro por voc.
      As palavras dele feriram-na como lmina e, na agonia de sua dor emocional, Natalia no pensou nas conseqncias do que dizia:
      - Bem, ento voc pode muito bem abandonar tudo isso agora.
      Houve um silncio ameaador. Kadir se esticou e acendeu a luz de sua cabeceira para olhar para ela.
      - E o que isso significa exatamente? - ele inquiriu.
      - Isso significa que estou grvida - ela informou calmamente. Agora j era tarde demais para achar que poderia ter sido menos impetuosa. Kadir franziu as sobrancelhas.
      - Isso  uma boa notcia, claro - ele declarou formalmente. - Mas no  muito cedo para voc ter certeza...? - Felizmente essa era uma sada para o seu impasse, 
pelo menos durante a gravidez.
      Essa era a oportunidade que tinha para voltar atrs e mentir espontaneamente ao aceitar a sada que ele estava inconscientemente lhe oferecendo. Afinal diferena 
isso faria? Ela sabia que era dele a criana que carregava. Um beb nascido duas semanas antes dos nove meses no suscitaria desconfiana alguma e certamente no 
haveria necessidade de se arriscar contando a verdade para Kadir.
      Mas como poderia mentir, consciente do que sentia por ele? Ela j sabia que ele no confiava nela em relao ao seu comportamento sexual. Ela no era sua me, 
uma jovem forada pelo medo e pelas circunstncias a impingir o filho do amante ao marido Afinal, esse filho era de Kadir. Ela no gostaria que o beb ou seu casamento 
fossem obscurecidos pelo fardo de qualquer tipo de mentira. Quem poderia saber o que o futuro reservava ou o quanto poderiam ficar prximos com o tempo? Talvez fosse 
tolice de sua parte ter tais sonhos, mas ela os tinha e no suportaria prejudic-los construindo seu futuro com base em mentiras deliberadas.
      Como se o seu silncio o tivesse despertado para a verdade, Kadir ficou com a expresso mais tensa ainda.
      - Quando? - ele perguntou diretamente. - Quando essa criana foi concebida?
      Natalia respirou fundo.
      - Em Veneza - ela respondeu. - Eu engravidei em Veneza.
      Para sua surpresa, ele jogou a coberta para longe e pulou da cama.
      - Kadir! - Natalia protestou.
      Sua confisso praticamente chegou junto com os pensamentos dele e caiu como um pressgio. Como se ele no conseguisse ignorar.
      - Impossvel. Usamos preservativo, voc sabe muito bem.
      - Eu sei, mas os preservativos no so infalveis - Natalia ponderou. - Eles ocasionalmente falham.
      - Isso  muito conveniente para voc, mas eu no aceito o seu argumento, no tendo experimentado em primeira mo a sua promiscuidade. O que aconteceu, Natalia? 
Voc permitiu que um de seus amantes se entusiasmasse e ento decidiu que estaria mais segura fazendo sexo comigo, s para o caso de ter engravidado dele? Voc me 
procurou deliberadamente em Veneza, sabendo perfeitamente o que havia feito? Afinal de contas, eu usei meu pseudnimo de jogador de plo por muitos anos.
      Natalia suspirou de to chocada e no conseguia acreditar.
      - Isso  ridculo - ela disse com a voz trmula. -- Eu no tinha idia de quem voc era e no houve nenhum amante antes. Eu no...
      - Voc no o qu? No faz sexo com estranhos? Natalia podia sentir o rosto arder. No havia como se defender daquela acusao.
      - Nada do que voc me diga me convencer de que esse filho que carrega  meu - Kadir disse friamente. - No, no permitirei que voc me imponha esse filho 
- ele repetiu antes de sair.
      Kadir mal conseguia olhar para Natalia. Sem dvida por causa de seus sentimentos: as esperanas que comeara a se permitir sentir, as precaues, o embrio 
vulnervel da necessidade de esquecer o passado e se permitir acreditar que em Niroli ele poderia deixar de lado os fantasmas de sua infncia e construir um futuro 
verdadeiro com Natalia e as crianas que estariam por vir.
      Sua angstia lhe provocava um gosto amargo na boca, onde h pouco tempo experimentara a doura do beijo de Natalia. Que doura? A suposta doura escondia um 
poderoso veneno. Ser que ela realmente pensava que ele estava vulnervel a ponto de lhe impor abertamente um bastardo sem que ele a desafiasse? E junto  violncia 
de seus pensamentos estava o reconhecimento que uma parte dele, no fundo, desejava que ela no tivesse respondido sua pergunta de forma verdadeira e que, em vez 
disso, ela... ela tivesse mentido para ele? Deixando-o acreditar que o filho era dele?
      
      
      CAPTULO ONZE
      
      Eu no permitiria que eles vissem como estava se sentindo, nem agora nem nunca, Natalia disse a si mesma, ao observar o modo como Zahra se pendurava no brao 
de Kadir enquanto ria e flertava com ele.
      Algum podia acreditar, por um segundo que fosse que aquela mulher viera para Niroli porque estava interessada em usar um pouco da fortuna que herdara de seu 
ltimo marido idoso para financiar um complexo de spa e hotel no deserto a alguns quilmetros de Hadiya, e por isso queria saber mais sobre o sucesso do resort de 
Niroli? Ou seria um plano grosseiro de Kadir para trazer sua amante para Niroli, mesmo que parecesse que Zahra havia chegado aqui por iniciativa prpria? Para ficar 
permanentemente? H trs meses a idia de seu marido ter uma amante no era uma coisa que ela aceitaria com relativa tranqilidade?
      O rei Giorgio estava lhe chamando. Ela teria de sorrir da forma mais serena possvel. Natalia atravessou o salo, fazendo uma reverncia formal antes de se 
sentar onde ele indicou.
      -  bom saber que Kadir pretende manter boas relaes com Hadiya. Como duas naes, temos muito a oferecer e aprender uma com a outra.
      - O prncipe Kadir deve nutrir um forte sentimento de fidelidade com seu pas de nascena, majestade - Natalia respondeu calmamente.
      - Sem dvida, mas a casa de Kadir  aqui, nossos costumes so os dele. Voc encontrou Zahra Rafiq em sua visita a Hadiya, no foi?
      - Sim - Natalia concordou mecanicamente. Para sua surpresa, o rei estendeu a mo e apertou a sua.               
      - Voc  uma boa menina, Natalia, e eu posso ver em seus olhos e sentir em sua voz o orgulho que sente Isso est certo e  natural, contudo... - o rei fez 
uma pausa - durante minha vida, talvez eu tenha cometido erros e feito julgamentos injustos que meu orgulho no me permitia admitir naquele tempo, mas que mantenho 
em minha conscincia, embora no tenha o hbito de admitir para os outros. Kadir  um homem muito orgulhoso. Como poderia no ser, se  meu filho? Como futuro rei 
de Niroli, ele ser tudo o que espero que seja para o pas, mas mesmo na minha idade Natalia, ainda me surpreendo com algumas descobertas. Eu no havia pensado, 
por exemplo, que o amaria de imediato e to profundamente.  como se ele fizesse parte de mim desde o incio. E por am-lo tanto que lhe digo, agora, que no gostaria 
de v-lo sofrer a infelicidade que meu prprio orgulho me impingiu algumas vezes. Eu percebi sua expresso ao olhar para ele quando achou que ningum estava observando, 
e tambm vi o modo como ele olha para voc. 
      Natalia podia supor o que o rei estava querendo dizer. 
      - Senhor, no precisa se preocupar, pois nem eu nem Kadir deixaremos de cumprir nossa promessa - ela assegurou veementemente. - Estamos comprometidos com nossas 
obrigaes em relao a Niroli. Eu... eu no posso falar, claro, pelos sentimentos mais ntimos de Kadir, mas... - Ah, lhe doa o corao pensar que sabia que esses 
sentimentos mais ntimos eram destinados a Zahra -... mas sei que ele no permitir que esses sentimentos intervenham em suas obrigaes.
      Com aquelas palavras, o rei Giorgio estava deixando claro que at ele podia perceber o quanto Kadir gostaria de poder ter Zahra como sua mulher. Isso era mais 
do que Natalia podia suportar. Ela mal conseguia controlar a voz. Ento, curvou a cabea e pediu com a voz rouca:
      - Senhor, se eu puder ter a sua permisso para me retirar...
      
      - Sua mulher est saindo - Zahra informou a Kadir triunfante. Ela sorriu para ele de forma provocante e alisou a gola de seu palet com a ponta dos dedos.
      - Zahra, voc no deveria ter vindo para Niroli - Kadir lhe disse secamente.
      - Como voc pode dizer isso, se posso perceber o quanto precisa de mim? - ela se aproximou dele.
      Kadir sacudiu a cabea de forma censurvel. No ficara satisfeito quando Zahra se apresentou no palcio dizendo que eram amigos prximos e insistindo que tudo 
que desejava era fazer negcios entre os dois pases. Ela disse que gostaria de continuar sendo sua amiga, mas quando ele reforara essa idia, Zahra fora docemente 
insistente ao dizer que sabia que a relao deles estava acabada, enquanto lhe implorava para que no a mandasse embora. Kadir se sentira compelido a deix-la ficar, 
pelo menos at que terminasse suas negociaes.
      - Eu sei que deveria procurar outra pessoa, Kadir - ela disse calmamente. - Mas como posso se voc  o nico homem que desejo? Eu nunca poderia ser sua rainha, 
eu sei disso, mas meu tolo corao no deixa de esperar que voc encontre um espao para mim em sua vida, mesmo que seja o de uma amiga confivel com quem possa 
passar algumas horas preciosas relaxando.
      - Essa conversa  uma tolice, Zahra, e voc sabe disso - Kadir a interrompeu. - Eu sou um homem casado, com um pas para governar, e tenho que dar o exemplo 
para o meu povo.
      - Mas voc precisa de mim, Kadir. Estamos destinados a ficar juntos. Estaramos juntos se no fosse a intromisso de sua me. Se ela no tivesse revelado suas 
mentiras para que voc me deixasse de lado. At que...
      - Chega! Eu no vou ficar ouvindo voc falar da minha me dessa maneira. Voc se esqueceu de que ela era sua rainha? - ele no permitiria que Zahra o culpasse 
por ter posto um fim na relao. Afinal, ele no havia sido seu primeiro amante e sempre deixara claro os limites da relao entre eles. O fato de sua me detest-la 
tanto o surpreendia.
      - Sua me traiu o prprio marido. Ela no merecia a posio de rainha.
      - J chega!
      - Ela alegava que o sheik era seu pai quando no era - Zahra continuou.
      - Voc esquece que ela era quase uma criana quando tomou a deciso de esconder sua gravidez do marido? - O que ele estava fazendo, defendendo a me, e, pior, 
repetindo os argumentos de Natalia? Kadir no sabia. Tudo o que sabia era que a inesperada crtica de Zahra a sua me o enchera de vontade de defend-la.
      - Kadir, por que estamos discutindo dessa forma quando poderamos estar fazendo alguma coisa muito mais prazerosa?
      Essa era a Zahra que Kadir conhecia, provocante e maldosa, uma mulher completamente sensual que sabia, como ningum, satisfazer um homem na cama.
      Mas que o deixava emocionalmente frio?
      Kadir afastou os pensamentos. No importava o que esse relacionamento representara no passado. No havia espao no presente nem no futuro para isso, e ele 
deixara isso claro para Zahra no momento em que seu pai o convidou para suced-lo no trono de Niroli.
      - Voc no deveria ter vindo - ele repetiu com firmeza. - Volte para Hadiya.
      Ela no estava olhando para ele, de modo que no pde perceber o dio em seus olhos, quando abaixou a cabea e disse de forma submissa:
      - Claro, como voc desejar, Kadir.
      Era impensvel que Kadir quebrasse o protocolo no palcio, em meio a uma recepo para os oficiais da corte, para provocar uma fofoca indesejvel ao rejeitar 
abertamente Zahra na frente de todos. Mesmo assim, ele no se conteve, retirou a mo dela de seu brao e se afastou.
      Por que Natalia teria sado do salo daquela forma? Ele a vira conversando com o rei. Seu pai teria dito alguma coisa que a aborrecera? Talvez ele tivesse 
questionado sobre a notcia que tanto ansiava.
      - Voc no pode me enganar, Kadir - Zahra continuava falando. - Eu sei que  a mim que deseja. Deixe-me ser a primeira a lhe dar um filho, no ela, com quem 
no deveria ter se casado. Deixe-me conceber o seu primeiro filho... venha comigo esta noite e ns...
      - Zahra, o que voc est falando no faz sentido e voc sabe disso - Kadir a advertiu severamente. -Alm disso, j  tarde demais - ele disse sumariamente. 
Natalia j estava grvida de uma criana que alegava ser dele, mas que praticamente sabia que no poderia ser. Ele havia usado preservativo. Era muito conveniente 
para ela sugerir que o preservativo estivesse defeituoso.
      Como ela? Como os sentimentos que nutria por ela e no queria admitir? Ele afastou Natalia de seus pensamentos e se concentrou em Zahra. O que teria dado nela? 
Ela sabia que estava fora de questo comearem outra vez um relacionamento, mesmo que tivesse um filho seu, e no conseguia entender por que ela estava falando tais 
coisas. Ele esperava que, ao lhe contar que Natalia estava grvida, pudesse traz-la de volta  realidade.
      
      A porta que dava acesso ao banheiro de Kadir continuava aberta e, l dentro, tudo escuro e vazio. Kadir no estava em seu apartamento. Onde estaria? Natalia 
se torturava amargamente. Eram trs da manh. Onde mais poderia estar, a no ser na cama da amante? No era de se estranhar que a situao estivesse incontrolvel 
a ponto de Zahra ter se hospedado em uma pequena vila particular durante sua visita.
      Para sua surpresa, a porta externa se abriu. Na penumbra, Natalia pde ver Kadir olhar para a cama onde estava deitada.
      - O que houve de errado, afinal? Voc decidiu que no seria prudente passar a noite toda com sua amante?
      Por que dissera aquilo? Havia prometido no se humilhar mais ao descer quele nvel de sarcasmo, mas Natalia estava comeando a descobrir que suas emoes 
eram muito mais fortes que sua razo.
      - E o que significa isso, exatamente?
      Natalia podia perceber algo alm da raiva na voz de Kadir, poderia ser exausto, mas ela no queria saber de nada disso.
      - Voc sabe exatamente o que quero dizer, Kadir Zahra  sua amante. Ela deixou isso bem claro em Hadiya. Voc a convidou para vir at aqui e esta noite deixou 
claro qual  sua relao com ela,
      - Eu no mandei buscar Zahra - ele estava sentado em seu lado da cama, de costas para ela. Natalia viu quando acendeu a luz.
      - Voc realmente no espera que eu acredite nisso, no ? - ela rebateu com sarcasmo.
      - Sim, na verdade espero - ele respondeu irritado. - Veja s, ao contrrio de voc, eu no costumo mentir.
      - Ao contrrio de mim! Voc me critica como se soubesse tudo a meu respeito, Kadir. Mas voc no sabe nada. Porque se realmente soubesse, saberia que enquanto, 
sim, entendo e usufruo da minha sexualidade, e que mulher da minha idade no o faz, a no ser que tenha srios problemas? No quer dizer que eu abuse disso. Na verdade, 
deve lhe interessar saber que antes da minha estupidez em Veneza em ceder a... em fazer o que fizemos, eu no tinha relaes sexuais havia cinco anos, por escolha 
prpria. Voc, claro, no acreditar nisso, porque prefere acreditar no pior e ao acreditar no pior, reforar a pssima imagem que faz de sua me - ela disse amargurada. 
-- Caso contrrio, teria de admitir que fez um julgamento errado dela. E isso significaria que ela morreu implorando pelo seu perdo e voc recusou...
      - No...
      A negao atormentada dele a trouxe de volta  realidade. No importava o quanto estivesse infeliz, isso no lhe dava o direito de mago-lo, e, na realidade, 
ela o amava demais para fazer isso.
      O amava! O corao vulnervel dela sofria ao reconhecer isso. E como Natalia gostaria que no fosse verdade!
      Ela j estava com as desculpas na ponta da lngua, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ele repetiu.
      - No... voc est errada. Eu fiz... quero dizer...
      Sem me importar com o que realmente achava, no poderia deix-la morrer pensando... Claro que lhe disse que compreendia. Como no poderia? Ela era minha me... 
Natalia sentiu um n na garganta.
      - Eu... eu sinto muito - ela disse com a voz rouca. - Eu no deveria ter dito isso.
      - No, no deveria - Kadir concordou, exausto. - E com relao a sua acusao de que Zahra  minha amante. Sim, isso j foi verdade, mas deixou de ser quando 
minha me morreu. A deciso de Zahra de vir at aqui no tem nada a ver comigo, e eu j deixei claro que no h lugar para ela aqui, assim como tambm no h em 
minha vida ou em minha cama.
      Aquilo seria verdade? E se fosse, quem sabe essa troca de confidencias, de certa forma hostis, pudesse levar a um entendimento entre eles? Talvez pudesse significar 
que, na hora certa... O qu? Que na hora certa ele pudesse am-la?
      - Ento se voc no estava com ela, onde estava. - ela o desafiou.
      - Dirigindo... e depois andando - ele mudou de assunto abruptamente. - Voc disse que at Veneza no fazia sexo h muito tempo? Eu no sou idiota Natalia. 
Eu j vi o que uma mulher  capaz de fazer para proteger um filho. Minha me me disse que no foi por amor ao rei Giorgio que deixou seu marido acreditar ser meu 
pai, foi por amor a mim, seu filho. Ela me disse que, quando uma mulher concebe um filho, deixa de se importar com o que sente e com a postura moral de antes. A 
partir do momento em que toma conhecimento dessa nova vida, proteg-la torna-se sua primeira preocupao. Voc me faz lembrar minha me em muitas coisas. Vocs compartilham 
da mesma preocupao com os outros e a mesma fora de propsito e esprito.
      - E por causa disso voc acredita que eu mentiria para voc sobre a paternidade de seu filho.  isso que est dizendo? - Natalia perguntou.
      Parecia inacreditvel que estivessem tendo esse tipo de conversa to ntima quando, alguns minutos antes, ela acreditava que ele estivesse nos braos de outra 
mulher. Como era estranho e injusto que pudesse acreditar nas palavras dele quando ele no conseguia fazer o mesmo. Mas ela no passara pelo mesmo que ele para poder 
competir.
      - Voc est mentindo para mim, eu sei.
      - Eu estou falando a verdade. Essa criana  sua. Talvez eu no devesse ter lhe contado que estava grvida. - Natalia explodiu. - Talvez eu devesse ter mantido 
a verdade em segredo e deix-lo acreditar que engravidara depois do nosso casamento - ela continuou. - S que eu no gostaria de pensar que a relao que pudssemos 
vir a ter fosse baseada em mentiras - ela colocou a mo sobre a barriga. - Ele  seu filho, Kadir. Se voc no pode acreditar nisso ou em mim, sempre se pode fazer 
um teste de DNA - ela lembrou, odiando-se por estar sendo to fraca a ponto de lhe oferecer isso, em vez de faz-lo acreditar em sua palavra. - Mesmo que s possa 
ser feito depois do nascimento do beb.
      - Voc acha que eu sou um completo idiota. Ns usamos preservativo. Essa criana no pode ser minha e s h uma maneira de resolver essa situao.
      - E qual ?
      - Redija um documento atestando que essa criana no  minha e no poder me suceder no trono de Niroli depois de minha morte.
      - Eu no entendo o que est dizendo - ela retrucou, horrorizada. - Voc realmente acredita que eu privaria meu filho... nosso filho dos seus direitos? Voc 
realmente acredita que eu faria isso como o nosso beb?
      - Seu beb - Kadir a corrigiu rapidamente. - Essa criana no tem nada a ver comigo, Natalia, e nunca a aceitarei. Ou voc concorda em assinar tal documento 
ou terei de recorrer ao rei Giorgio para que anule nosso casamento, e contar a ele o porqu.
      - Voc no pode fazer isso - Natalia sussurrou.
      Como ela poderia falar, depois de tudo o que ele dissera, que ela acreditava naquilo verdadeiramente Que alguma coisa bem no fundo dentro dela, de alguma forma, 
havia sabido, em Veneza, tudo o que ele viria a significar para ela e que, como uma bno do destino, ela teria um filho dele.
      - No  o que eu desejo - ele a surpreendeu ao admitir. - Eu devo pensar nos sentimentos de meu pai. Ele a escolheu pessoalmente para ser minha mulher. Ele 
 um homem muito orgulhoso, e descobrir quem voc realmente  o deixaria muito humilhado Alm disso, tirando a sua vida sexual, em pouco tempo e de forma surpreendente, 
reconheci o quanto  qualificada para ser rainha de Niroli -- ele comentou de forma melanclica. - Juntos, podemos trabalhar para dar a essa ilha e a esse povo tudo 
o que eles merecem ter, mas eu no permitirei que esse bastardo reivindique a minha paternidade. Voc cuidar para que essa criana fique longe de mim, porque isso 
sempre me lembrar todas as razes pelas quais aprendi a duvidar e no confiar no seu sexo.
      Kadir pensou no tempo em que passara lutando consigo mesmo, poucas horas antes. Ele era forado a admitir o quanto ela significava para ele e o quanto gostaria 
de t-la ao seu lado, mas no poderia sobrepujar sua fria e continuar tentando acreditar que aquela criana era sua.
      - A escolha  sua - ele disse ao se levantar da cama.
      - E se eu me recusar? - Natalia perguntou, com a boca seca. Mas claro que ela j sabia a resposta. - Kadir, por favor, voc est falando do seu prprio filho 
- ela implorou. - O preservativo poderia estar vencido. O beb pode ser submetido a um teste de DNA e eu juro que ele  seu filho. Voc mesmo pode acompanhar os 
testes. Kadir, voc cresceu com um pai que lhe virou as costas. Voc melhor do que ningum sabe a dor que isso pode causar a uma criana.
      - No me pea para mentir para voc, porque eu no o farei. Eu lamento no poder acreditar que essa criana possa ser minha. Eu dormirei no meu quarto esta 
noite.
      Natalia se deitou depois que ele saiu.
      Ele estava lhe oferecendo o que tanto queria, mas a que preo? Ela no poderia e no permitiria que ele negasse ao filho deles o direito  verdadeira paternidade, 
mas no poderia for-lo a am-lo, assim como no poderia pedir o mesmo para si. Por qu? Por que isso tinha de ter acontecido? Se ela no tivesse ido para Veneza, 
se no o tivesse encontrado at o dia do casamento... Mas por que dizer isso, por que no se perguntar o motivo pelo qual Kadir no conseguia aceitar a verdade, 
por que no conseguia aceitar o presente que j havia lhe dado e o presente que era essa criana como resultado daquela noite? Ela sabia as respostas, no sabia? 
A dificuldade de Kadir em aceitar o sexo feminino, na verdade, estava muito arraigada.
      Bem, ela no permitiria que ele punisse o filho pelo que ele prprio havia sofrido na infncia. Se ele insistisse em rejeitar a criana, ela daria um jeito 
de suprir a presena masculina com algum de sua prpria famlia. Ela o protegeria e amaria, sem se importar com o que Kadir dissesse, mesmo que para isso fosse 
preciso fechar de vez a porta do amor que tanto desejava ver florescer entre eles.
      
      
      CAPTULO DOZE
      
      Niroli estava passando por um de seus raros perodos de mau tempo, com ventos fortes varrendo a costa e ondas altas. O cu cinza substituiu os dias ensolarados 
e a vista da janela do apartamento deles era sombria e assustadora. Mas nem de longe era to assustador quanto seu futuro e o do filho que carregava, Natalia reconheceu.
      Ela planejou passar a manh trabalhando nas anotaes para a srie de palestras que faria para as jovens mulheres de Niroli. S que, nesse momento, as palavras 
de encorajamento e estmulo no fluam. Natalia s conseguia pensar no pobre filho que crescia dentro dela e no fato de que ele no teria a oportunidade de ser amado 
por seu pai, a oportunidade de crescer feliz e confiante em uma atmosfera de amor, seguro e ciente de seu lugar no mundo. Natalia empurrou o laptop em que trabalhava 
e levantou-se. Hoje, por no ter novos compromissos formais, ao contrrio de Kadir, que tinha de fazer algumas visitas aos vinhedos, estava vestida com suas prprias 
roupas, uma confortvel blusa branca de l de mangas compridas por baixo de uma tnica cinza.
      Ela ouviu a porta do salo se abrindo e se virou para ver quem era. Seu corao se contraiu ao ver Zahra fechando a porta.
      A ltima pessoa com quem gostaria de estar nesse momento era a amante de seu marido. A ex-amante, ela se corrigiu.
      Afinal, Kadir jurara que essa era a mais pura verdade, e se ela esperava que ele aceitasse as suas palavras como verdadeiras, deveria fazer o mesmo.
      -  verdade que voc est grvida de um filho de Kadir? - Zahra perguntou, sem rodeios.
      Sua aspereza fez Natalia recuar, embora o mais importante e mais doloroso era imaginar que a nica maneira de Zahra saber de sua gravidez era por intermdio 
de Kadir, mas como se no havia mais nenhuma intimidade entre eles? Afinal, esse no era o tipo de informao que algum daria em uma conversa casual com sua ex-amante, 
ou era?
      Quando ele teria lhe contado? Na noite anterior, depois que ela finalmente pegou no sono exausta e infeliz? Ele teria ento ido buscar consolo com ela para 
seus sentimentos com relao ao filho?
      -  verdade? - Zahra pressionou.
      Havia uma expresso agitada no olhar dela, Natalia logo percebeu, um vazio no olhar e nas maneiras, os movimentos estavam descoordenados, como se estivesse 
descontrolada.
      - Se eu terei ou no um filho, esse assunto  pessoal - Natalia respondeu com dignidade.
      Zahra ignorou o esforo de Natalia em ser discreta com a situao.
      - Kadir no tem segredos para mim, ele me conta tudo. Tudo - ela repetiu energicamente. - Voc entende? Eu sei que voc est grvida, mas claro que ele no 
deseja isso. Como poderia?
      Natalia sentiu-se invadida por um mal-estar que lhe tirava as foras. At ouvir essas ltimas declaraes, estava tentando se convencer de que Zahra estava 
exagerando na extenso da intimidade que dividia com Kadir, mas agora era forada a aceitar a verdade. Kadir a chamara de mentirosa, mas era ele algum estava mentindo. 
Ela no devia deixar Zahra perceber o quanto a incomodava. Deveria pensar em seu filho.
      - Voc no confirma, mas sei que  verdade. O seu silncio a denuncia - ela percebia a irritao de Zahra. - Voc acha que venceu, no ? Voc acha que s 
porque Kadir a engravidou ele  seu, mas no  e nunca ser. Voc pode ter engravidado, mas ainda no pariu. Um rei precisa de filhos, herdeiros, crianas de verdade... 
e voc ainda no as pariu.
      Alguma coisa estava muito estranha, ela podia perceber, quase sentir o cheiro no ar. As palavras da outra mulher agora no eram mais de cimes, uma amante 
vingativa determinada a manter a sua posio perante um homem compartilhado e que se tornava uma ameaa direta a Natalia. Ela sentiu os primeiros sinais de medo.
      Onde estavam as damas de companhia e a condessa? Agora era tarde demais para se arrepender por ter insistido em ficar sozinha. Zahra estava de p entre a porta 
que dava para o corredor externo e ela. As outras portas do quarto, que eram um pouco distantes, davam para o resto do apartamento, que estava vazio.
      Ela certamente estava sendo dramtica, algo comum nas mulheres grvidas, que tendiam a proteger o filho, Natalia raciocinou, mas ao se aliviar com esse pensamento, 
Zahra comeou a falar alto.
      - Voc pensa que deixarei que tire Kadir de mim? Realmente pensa que s porque lhe disse que ter um filho dele ele a escolher? Voc  muito tola. Porque 
ele no escolher. Eu no deixarei que isso acontea  a mim que ele ama e deseja. Estou destinada a ficar ao lado dele. Kadir  meu. Nossos filhos sero seus principais 
herdeiros, no os seus.
      De repente, o tom da voz de Zahra se tornou ameaador, provocando arrepios na nuca de Natalia.
      - Eu a matarei primeiro, voc e seu filho. Eu cortarei a sua garganta e depois arrancarei o filho que carrega dentro da sua barriga, antes que tire Kadir de 
mim.
      Zahra estava louca. Completamente insana, Natalia reconheceu, horrorizada. Insana e perigosa, admitiu. Natalia foi tomada pelo pavor  medida que as palavras 
de Zahra eram proferidas. Natalia olhou na direo da porta. Rapidamente, Zahra percebeu sua inteno.
      - No adianta. Voc no pode escapar.
      Ela precisava fazer alguma coisa para se acalmar. No deveria se apavorar e transformar uma situao j perigosa em algo pior ainda. Algum a acudiria, eles 
feriam de fazer algo. Desesperadamente, ela pensou no instinto imediato de proteger o filho, tentou usar a lgica, acalmando-se para contornar a situao.
      - No h necessidade disso, Zahra - ela disse tentando manter a voz calma e firme. - Eu no metendo tirar Kadir de voc. - Se pelo menos conseguisse passar 
por Zahra e chegar ao corredor, ela poderia escapar, se trancar no banheiro e ento pedir socorro.
      - Voc est mentindo, voc o ama e o deseja s Dara voc. Eu vejo nos seus olhos. Voc lhe disse que est grvida para prend-lo a voc, mas isso no funcionar 
porque voc no carregar esse filho por muito tempo.
      Para o desespero de Natalia, Zahra alcanou a manga da blusa que ela usava, lanou-lhe um olhar maldoso e lhe apontou uma adaga.
      No havia dvida de que Zahra estava totalmente fora de si. No fazia sentido continuar tentando ser racional, ela no conseguia ouvir nenhum argumento lgico.
      - Primeiro foi aquela me dele que o impediu de se casar comigo - ela arfou, ao se aproximar de Natalia - Ela no me aprovou. Achava que eu no era boa o suficiente 
para Kadir. E agora, por causa das mentiras dela, surgiu voc, uma europia insignificante com quem Kadir foi forado a se casar. Mas ele no a deseja.  a mim que 
ele quer. E eu o quero tambm. S h voc impedindo a nossa felicidade  meu dever mat-la, porque  minha obrigao fazer Kadir feliz.
      Ela precisava conseguir chegar s portas internas Se no conseguisse, Zahra tentaria ferir o beb e o mataria. Ela era mais alta e mais atltica, mas no sabia 
manusear uma faca ou se defender dos movimentos rpidos que Zahra fazia ao se aproximar dela.
      Mesmo que se virasse e corresse em direo s portas, elas eram pesadas e no abririam com facilidade e Zahra a alcanaria, usando aquela adaga para rasgar 
e dilacerar sua pele.
      O que poderia fazer? Natalia se deu conta de que estava rezando, pedindo fora e ajuda, implorando a Deus ou a algum que estivesse por perto para ajud-la 
e, o mais importante, ao seu beb.
      
      As vinhas estavam em seu perodo de descanso Fileira por fileira eram imaculadamente supervisionadas. Enquanto observava e ouvia Giovanni Carini, av de Natalia, 
Kadir percebeu que o homem descrevia as virtudes e os problemas das vinhas como se estivesse falando de um filho.
      - Todas essas so vinhas novas que nos foram presenteadas por Rosa Fierezza - Giovanni contou com orgulho.
      - Voc certamente as ama como se tivessem brotado em Niroli - Kadir o provocou delicadamente.
      - Certamente  obrigao de todo homem tratar com carinho maior ainda aquilo que lhe  presenteado - Giovanni retrucou com firmeza.
      De repente, Kadir teve um pensamento e viu a imagem de sua me como estava nas ltimas semanas, com o corpo frgil, mas com a fora de seu esprito brilhando 
enquanto lhe implorava para se orgulhar de sua real paternidade.
      - Niroli se beneficiar com tudo o que voc traz em Sua administrao, Kadir, assim como Hadiya, se voc tivesse escolhido assumir o governo de l. Seu irmo 
 um bom administrador, um homem justo e gentil, mas voc tem a viso e a paixo que so necessrias a um bom lder, e isso voc herdou de seu verdadeiro pai. Eu 
lhe imploro: no faa pouco caso dessas virtudes.
      Sua me... Como ela teria adorado Natalia. E o filho que Natalia est carregando? To ntido como se ela estivesse ao seu lado, ele podia ouvir a voz suave 
de sua me lhe dizendo:
      - No renegue seu filho. Kadir. No abandone essa preciosa bno por medo.
      Ento era isso? Ele estava se recusando a aceitar que era o pai do filho de Natalia por medo? Ele sabia perfeitamente bem, apesar de ter negado para Natalia, 
que os preservativos nem sempre so confiveis. Que homem no saberia? Natalia j havia lhe provado, de vrias maneiras, sua honestidade e a fora de seus cdigos 
morais por meio das coisas que dizia e fazia. Ento, por que seria diferente com relao a essa criana...? Sua criana. Ele queria acreditar nela, ou no? Queria 
que ela fosse sua mulher de verdade sua parceira, total e completamente. Ele estava sentindo aquela ponta de medo. O medo de um homem profundamente apaixonado e 
inteiramente desprovido de verdadeira fora, que temia no ser capaz de ganhar e manter o amor da mulher que tanto amava por ter se sentido preterido no passado?
      Kadir nunca imaginou que um dia tivesse que se perguntar tais coisas. Mas, quando um homem est profundamente apaixonado, seu modo de ver as coisas muda por 
completo.
      Profundamente apaixonado? Ele? Por Natalia? Bem no era ele? No era o que parecia? Ele no era homem o suficiente para acreditar na declarao de que o filho 
fosse dele? E se fosse ao contrrio? E se ele estivesse sendo acusado da paternidade de um filho que no fosse seu, por exemplo, e ela se recusasse a acreditar nele? 
Como se sentiria? Por tudo isso, Kadir sabia que precisava ver e falar com Natalia, honesta e abertamente, colocar suas prprias inseguranas diante dela e declarar 
seu amor. Ele fora o primeiro homem com quem ela se deitara depois de muitos anos, ela dissera. Como se sentia ao aceitar essa confisso? Isso no fazia com que 
ele quisesse abra-la e dizer o quanto isso significava para ele? Saber que ela rompera com todos os seus valores para se entregar a um desejo arrasador e imediato 
por ele? Kadir olhou discretamente para o relgio. Ainda estava no meio da visitao, levaria algumas horas at que pudesse voltar para o palcio.
      Um vento repentino varreu o terreno das vinhas, seguido de chuva.
      - Isso so as famosas tempestades de Niroli - Giovanni informou. - Elas vm de algum lugar do mar, raramente e de forma abenoada, mas quando chegam...
      - Sua alteza, talvez fosse melhor voltarmos para o palcio - um de seus assessores sugeriu. - Pelo menos at a tempestade passar.
      Kadir concordou, pensando com certa tristeza que, mesmo no desejando que as vinhas de Niroli sofressem qualquer dano, estava satisfeito por ter uma desculpa 
para estar com Natalia.
      Natalia! O desejo de estar ao lado dela no lhe saa da cabea e, pela primeira vez na vida, seguiria os seus instintos e o corao em lugar da lgica.
      
      A primeira pessoa que viu ao pisar no palcio foi a condessa.
      - Minha mulher - disse. - Ela est...?
      - Ela est no apartamento, sua alteza. Ela pediu para no ser perturbada, mas se quiser que eu avise que...
      - No, no h necessidade.
       
      - Voc no pode escapar, sabe disso, no sabe? - Zahra ameaava. - Mesmo que voc grite e algum a escute, at chegarem aqui ser tarde demais. 
      Natalia se esforava para acreditar no que estava acontecendo. Ela sabia, no fundo, que aqueles modos agressivos de Zahra se pareciam com os de um caador 
em potencial, alm de tambm ficar irritada por no conseguir fazer com que Kadir enxergasse isso: que havia alm da adorvel, delicada e sedutora fachada que ela 
apresentava para ele. Mas jamais lhe ocorrera que Zahra pudesse atac-la.
      - Zahra, voc precisa pensar como ser o seu futuro se continuar com isso - Natalia tentava persuadi-la, procurando desesperadamente diminuir a tenso e falar 
abertamente do que estava se passando. - Voc no conseguir escapar. Ser presa. E ento como poder ficar com Kadir?
      Zahra, por sua vez, no queria se desviar do assunto.
      - Kadir me proteger - ela insistia. - Ele est acima da lei e eu tambm estarei. Voc no  nada... e quando eu tiver dado o primeiro filho a Kadir, ningum 
sequer lembrar que voc existiu. Mas primeiro, claro, eu tenho de destruir o filho que voc carrega.
      Como ela podia ser to fria? S uma pessoa mentalmente perturbada poderia agir daquela maneira, E certamente no adiantaria conversar com Zahra. Ela precisava 
tentar alcanar aquelas portas. No havia outra maneira de escapar. A cada palavra, Zahra deixava mais clara a loucura. No havia como argumentar.
      Natalia tentou calcular a distncia que teria de correr. Se fingisse correr para a porta mais distante, talvez conseguisse enganar Zahra.
      Ela respirou fundo e fez uma pequena prece para o seu anjo da guarda, se  que tinha algum, e para ser perdoada pelo filho caso no conseguisse.
      Devia se concentrar nas portas, em abri-las e conseguir escapar. De repente, a porta principal foi aberta, fazendo com que as duas olhassem naquela direo.
      - Kadir... - Natalia gritou seu nome, aliviada ao ver o marido ali de p. Embora ele pudesse ter convidado Zahra para ficar com ele, Natalia no acreditou, 
nem por um instante, que tivesse conhecimento do seu bvio e precrio estado mental.
      - O qu...?
      Kadir entendeu a situao e examinou o ambiente.
      - Zahra - ele comeou, mas ela no o deixou continuar.
      Sem tirar os olhos de Natalia, ela disse com uma alegria insana.
      - Kadir, est tudo bem. Em breve ela no estar no nosso caminho, eu tenho de mat-la junto com o beb que est carregando.
      - Guardas. Guardas! - Kadir gritou insistentemente no corredor enquanto Zahra avanou rapidamente na direo de Natalia, rasgando a manga da blusa com um golpe 
da adaga, quando Natalia se esquivou e saiu correndo pela porta agora aberta. Natalia foi rpida, mas claro que a loucura de Zahra lhe dava mais rapidez ainda. Natalia 
podia ouvir a respirao ofegante de Zahra atrs dela. Ela sentiu a lmina afiada rasgando a pele de seu ombro e, ento, de forma incrvel, inacreditvel e praticamente 
impossvel, quando achou que no tinha mais escapatria, Kadir jogou-se entre elas para lhe dar cobertura e conter a fora selvagem de Zahra, que desferia golpes 
na altura do seu corao.
      A ltima coisa que Natalia ouviu antes de desmaiar foi o gemido de dor abafado que Kadir emitiu ao cair sobre ela.
      
      - Sua alteza, Zahra Rafiq foi interceptada a caminho do aeroporto. Ela se recusou a passar por um exame mdico aqui em Niroli. Portanto, como o senhor nos 
instruiu, entramos em contato com as autoridades de Hadiya e eles deram permisso para que ela fosse escoltada para fazer os exames l e receber tratamento.
      Kadir contraiu os lbios. Ele sabia que nunca se perdoaria por no ter percebido que Zahra vinha se escondendo por trs de uma mscara de aparente sanidade. 
Natalia, boa como era, o encorajara a pensar com compaixo e entender que aquele comportamento fazia parte de uma condio mental no diagnosticada. Contudo, no 
momento, Kadir ainda tinha dificuldades para entender. O verdadeiro culpado, claro, era ele, por no ter percebido a verdade sobre Zahra.
      Agradecendo ao ministro por seu relato, ele se virou para o enfermeiro do palcio, ansioso por falar com ele.
      - O rei Giorgio est muito ansioso para v-lo, alteza - ele informou a Kadir. - Ele ficou sabendo das noticias do terrvel ataque que o senhor e a princesa 
sofreram e est muito preocupado.
      - Por favor, diga a meu pai que estou bem e que devo estar com ele assim que conseguir falar com o mdico da princesa.
      Nem para tranqilizar seu pai Kadir pretendia deixar o hospital antes de falar com Natalia para lhe dizer o que pretendia.
      Ele sabia que, de agora at o dia de sua morte, nunca esqueceria a emoo que sentira ao abrir a porta do apartamento e presenciar o que estava acontecendo. 
A realidade da morte iminente de Natalia ainda nublava os olhos dele, as mos envolvendo o prprio corpo para se proteger e ao seu filho. Naquele momento, tudo o 
que sabia, seu nico pensamento, era que precisava proteger os dois. No apenas Natalia, mas o filho que carregava tambm. Ento ele instintivamente percebeu, quase 
tarde demais, que o filho s poderia ser dele. Ele se sentiu protetor, e se encheu do mais puro amor por ele. Quem os protegeria se no ele? Quem teria mais responsabilidade, 
mais direito de estar entre eles para proteg-los de qualquer ameaa? Sua mulher... Seu filho...
      Seu ltimo pensamento quando comeara a perder a conscincia fora que os amava acima de qualquer coisa.
      Contudo, foi um choque chegar ao hospital, ainda semi consciente pela perda de sangue, e ser informado de que havia um grande risco de Natalia perder o beb...
      - Vocs tm de salvar o beb - ele dizia, enquanto limpavam seu ferimento, que, por mais que parecesse srio, no atingira nenhum rgo vital.
      - Ns faremos o possvel - eles garantiram, sem saberem que sua preocupao no era pela criana ser o seu herdeiro, mas porque sabia o quanto Natalia ficaria 
perturbada se o perdesse. Kadir tambm no suportaria isso nem o fato de ela e o beb nunca virem a saber o quanto estava errado e o quanto os amava.
      
      Na cama do hospital, Natalia olhou assustada para o rosto do mdico.
      - Meu marido... como ele est? - ela perguntou, ainda em choque.
      - O prncipe herdeiro est bem, tem apenas um ferimento - o mdico assegurou. - Ele est esperando l fora para v-la.
      Natalia concordou, e ento olhou para ele.
      - Voc tem certeza... sobre... sobre o beb? - ela implorou com os olhos cheios de lgrima. Eles j haviam removido a sonda usada para repor os fluidos e ela 
tambm estava levemente sedada para manter a calma, enquanto lutavam para salvar o beb. - No h nenhum engano...? - ela implorou novamente.
      - No, no h nenhum engano - o mdico confirmou de modo cansado. Foi uma noite longa, e eles haviam estado empenhados em salvar o prncipe, a princesa e o 
beb.
      A porta do quarto se abria. O mdico fez uma pequena reverncia para Kadir antes de deix-los a ss.
      - Obrigada por... por salvar minha vida.
      Kadir fez uma careta. Ele parecia cansado e exaurido.
      - Era minha obrigao salv-los, j que fui eu quem os colocou em risco. No podia imaginar que Zahra... ela nunca demonstrou qualquer sinal... Quando eu lhe 
disse que no fazia sentido ela permanecer em Niroli e reforcei que voc era minha mulher e que estava grvida, nunca poderia imaginar...
      Alguma coisa na sinceridade bvia do comportamento dele quebrou o distanciamento de Natalia. Ela queria alcan-lo e toc-lo, mas como poderia, se sabia o 
que ele pensava a respeito do beb? Ele provavelmente deve ter desejado que o tivesse perdido, mesmo que no tivesse preparado para admitir isso. Ela sabia. Como 
no saberia, depois do modo como se recusara a aceitar que o beb fosse dele?
      - Voc no podia saber. Eu suponho que nem ela estava ciente de que sofria de desequilbrio mental.  muito triste... - Natalia disse emocionada. - Mas no 
h motivo para voc se culpar.
      - Muito pelo contrrio, h muitos motivos. Voc  minha mulher,  meu dever proteg-la, eu deveria ter percebido...
      - Eles j lhe contaram sobre... sobre o beb? - Natalia perguntou, com a voz baixa. - Kadir assentiu. - Eu suponho que voc ache que teria sido melhor se eu 
o tivesse perdido.
      Ela no conseguia olhar para ele. Durante o tempo em que estivera sedada, enquanto o beb lutava para se manter vivo, ela sabia que Kadir deveria estar desejando 
o oposto. Isso a machucava mais do que qualquer coisa que Zahra pudesse lhe ter feito.
      - Natalia...
      A porta do quarto se abriu e um enfermeiro permaneceu parado l.
      - Sua alteza - ele comeou, claramente confuso. - O rei... o rei Giorgio est aqui. Ele precisa v-lo para acreditar que est vivo...
      O rei estava aqui? O rei que nunca saa do seu palcio? Os olhos de Natalia se estreitaram. Ela viu por si mesma como o amor que sentia por Kadir havia amenizado 
a arrogncia do rei e esquentado seu corao, mas isso era realmente uma evidncia do quanto Kadir significava para ele.
      - V at ele - ela pediu. - Ele  um homem velho, Kadir, deve ter ficado muito assustado.
      Kadir inclinou a cabea.
      - Muito bem - ele disse. - Mas eu volto assim que puder.
      Assim que Kadir se retirou, o mdico voltou carregando um envelope.
      - Essas so as cpias da ultra-sonografia que fizemos do beb - ele informou, sorrindo. - No somos partidrios de usar o aparelho meramente como um meio de 
se saber o sexo dos bebs para que os pais possam decorar o quarto, mas j que tivemos de fazer esse exame para saber se o beb estava bem, eu imaginei que voc 
quisesse ficar com ele.
      Sorrindo em meio s lgrimas, Natalia pegou o exame.
      - Eu perguntei ao prncipe Kadir se ele gostaria de v-los, mas ele se recusou...
      - Sim - Natalia concordou tranqilamente. - Era de se esperar.
      - Ele disse que voc deveria ser a primeira a v-lo - informou o mdico, sem perceber o que ela quis dizer com aquelas palavras tristes. - Voc pode no querer 
v-lo, se no quiser saber o sexo do beb... est bem claro nas imagens.
      - No, est tudo bem, eu adoraria saber.
      - Mas, de qualquer forma,  bom saber que o futuro rei de Niroli ser presenteado com uma filha. Quando lhe ofereci a chance de saber o sexo da criana, ele 
disse que o sexo no importava, bastava saber que a criana estava viva e bem.
      Natalia ficou tensa e no acreditou.
      - Eu no posso imaginar... que ... ele realmente no queria...
      Como se tivesse adivinhado o que ela estava sentindo e no pudesse dizer, o mdico lhe disse gentilmente:
      - Toda Niroli sabe que seu casamento  uma questo de Estado, mas ningum que tenha presenciado a preocupao do prncipe herdeiro nas ltimas horas poderia 
duvidar que, diga voc o que quiser, ele agora  um homem muito mais apaixonado e devotado a sua mulher. Voc era sua principal preocupao quando foram trazidos 
para c. Ele nos pediu que a atendesse primeiro e passou a noite inteira na porta do quarto. De fato, uma de minhas enfermeiras precisou me comunicar que ele desobedecera 
minhas instrues e que ficara aqui lhe observando enquanto estava inconsciente. Agora, por favor, acredite em mim, no precisa mais se preocupar com a segurana 
do seu beb. Eu garanto que tudo est bem e que a crise j passou.
      Natalia balanou a cabea. Kadir dissera aquilo para o mdico? Ele deve ter entendido errado. Ela conteve um bocejo sonolento. O mdico lhe avisara que deveria 
se sentir cansada por alguns dias, em virtude do que passara, e que seu corpo a obrigaria a dormir para que ela e o beb pudessem se recuperar por completo. Ela 
olhou para o envelope que o mdico lhe dera e o abriu lentamente, analisando as imagens. As lgrimas embaavam a viso do seu lindo beb. O beb que poderia ter 
perdido... o beb que originalmente no deveria ter sido concebido.
      
      Natalia estava dormindo quando Kadir retornou ao quarto e se sentou na poltrona ao lado de sua cama. Ele olhava para o lenol que lhe cobria a barriga ainda 
lisa. Os sentimentos de seu pai quando lhe garantira e reassegurara que estavam todos vivos e bem lhe deixaram comovido. Ele estendeu o brao e colocou a mo sobre 
o corpo de Natalia. No precisava se esforar para lembrar como se sentira durante as longas horas da noite de terror, ao pensar que ela poderia perder o beb.
      - Eu rezei por voc, pequenino - ele murmurou suavemente -, e minhas preces foram atendidas. Tenha certeza de que ter o meu amor. Da mesma forma que voc 
 meu verdadeiro filho, o filho do meu corao, eu serei um pai de verdade para voc. Voc e sua me devem receber a maior de todas as graas que posso lhes oferecer, 
que  o meu amor pelo resto de suas vidas.
      - Kadir - a voz de Natalia estava embargada pelas lgrimas. Ela o ouvira entrar, mas no abrira os olhos.
      - Foi o que eu falei - ele disse, tomando as mos dela entre as suas. -  o que realmente sinto, Natalia. Eu a amo. Voc, Natalia Carini, uma mulher destemida 
e instigante que demonstrou seu orgulho atravs de sua sexualidade e me fez ver a verdadeira razo pela qual eu lutava to bravamente para negar o amor que sentia 
por voc. O medo  uma coisa terrvel. Natalia, minha mulher, meu amor, minha vida, amo voc, mesmo que tenha me recusado a aceitar isso antes - ele respirou fundo. 
- Quando vi Zahra com aquela adaga e percebi o que iria fazer, no era apenas a sua vida que eu precisava proteger, mas a de nosso filho tambm. Voc no precisa 
temer por essa criana, esse filho, que agora aceito espontaneamente como sendo meu prprio filho, que no sofrer como eu sofri. Eu j o amo. 
      - Seu filho? - Natalia perguntou suavemente. Ela quase no conseguia tirar o sorriso dos lbios. - Bem, eu no quero desapont-lo, Kadir, mas, na verdade, 
esse filho que pretende amar  uma filha... - ainda sorrindo, ela lhe estendeu o exame.
      Ela podia saber que, agora, Kadir estava preparado para aceitar essa criana como sua, mas de alguma forma tambm sabia que ele cairia de amor por esse filho 
de forma diferente se fosse um menino. Mais tarde, se o destino desejasse, ela o presentearia, e ao povo de Niroli, com um herdeiro homem, mas por enquanto carregava 
esse precioso presente, que era uma menina, e uma felicidade que mal podia suportar.
      - Uma filha... - Kadir maravilhou-se ao olhar as imagens, seus olhos brilharam de emoo.
      - Eu pensei em lhe dar o nome de sua me...- Natalia sugeriu, um pouco hesitante. - Eu... pensei nela quando estava apavorada e sozinha com Zahra e rezei...
      Kadir cobriu suas mos com as dele.
      - Eu tambm - ele confessou. Eles se olharam e Kadir se debruou sobre ela. - Ah, meu amor, meu precioso amor. Se eu a tivesse perdido...
      - Mas voc no perdeu e nunca perder - Natalia garantiu, enquanto levantava o rosto para ser beijada.
      Uma enfermeira entrou para a visita de rotina, mas rapidamente se retirou. Quem poderia imaginar que um casal real se comportaria dessa forma, como qualquer 
pessoa comum, agarrando-se e se beijando de forma to apaixonada?
      
      - Voc sabe, eu realmente acho que ela se parece com a minha me - Kadir disse mais tarde para Natalia ao examinarem, pela milsima vez, as imagens da ultra-sonografia. 
- No, definitivamente ela tem o seu nariz - Natalia o corrigiu com firmeza.
      
      
      EPLOGO
      
      - Os genes dos Fierezza so espantosamente vigorosos - Natalia ouviu Emily Fierezza, mulher do prncipe Marco, afirmar, sorrindo para uma das mulheres da famlia 
reunidas no ptio. Eles estavam se preparando para seguir para a catedral onde Kadir seria formalmente coroado e receberia a bno como novo rei de Niroli.
      - Eu j perdi as contas de quantos bebs j nasceram ou esto para nascer. Voc me dir se estiver se sentindo cansada, certo? - Emily pressionou Natalia.
      - Kadir me fez jurar que vigiaria voc.
      - Voc, a condessa e todo o resto da famlia - Natalia riu, enquanto esperava para entrar em sua carruagem, uma das muitas que formariam a procisso da coroao 
que acompanharia Kadir at a Catedral de Niroli, de onde voltaria como novo rei.
      - Eu no consigo esquecer a mudana do rei Giorgio. Nunca o vi to feliz e relaxado. Marco diz que  como descobrir um av que nunca conheceu, e tudo isso 
se deve a voc e a Kadir. Marco diz que, no convvio com vocs, ele se humanizou.
      - Eu no fiz nada - Natalia protestou. - Acho que  porque o rei Giorgio percebeu o quanto  importante o amor de uma famlia, e que precisa dar amor para 
receb-lo em troca.
      - Kadir ser um excelente rei para Niroli, Natalia - Emily declarou.
      Lgrimas brotaram nos olhos de Natalia.
      - Voc sabe o quanto  importante para Kadir ter o apoio da famlia.
      - Ele e Marco tm muito em comum. Ambos so muito independentes e determinados.
      Certamente, e aquele Fierezza ainda tinha uma coisa extra muito especial herdada de sua me. Natalia reconheceu. Um sorriso discreto surgiu em seus lbios 
e seu olhar brilhou com as lembranas sensuais. No incio, Kadir controlou seus desejos por causa do beb, mas na noite anterior, ele se rendera aos desejos dela, 
quando Natalia lhe garantira que era perfeitamente seguro. Ele a amara com delicadeza e em profundidade. Natalia ainda podia sentir em seu corpo as lembranas do 
amor compartilhado. Sua pele ainda sentia o calor dos beijos dele, cada lugar visitado e revisitado, at que ela no conseguisse se conter e gritasse de prazer. 
Ele era um homem muito sensual. Meu homem, foi como ela sussurrou para ele na noite anterior, enquanto navegava por aquele territrio que havia explorado na primeira 
vez em que fora tocada por ele. Ela realmente acreditava que ele era sua alma gmea.
      - Certa vez, no acreditei em voc - ele disse. - Mas agora, como posso negar quando o ar que respiro  testemunha do meu amor por voc? Eu sou to abenoado, 
Natalia - ele se declarou enquanto lhe beijava o pescoo e o rosto, sua deliberada demora fazia com que Natalia desejasse ardentemente ser beijada por ele. - Eu 
tenho voc... nossa criana e um pai que me ama, um povo que, com voc ao meu lado, me acolheu em seu corao. Eu realmente sou abenoado.
      E ento ele a beijou. Natalia sabia que nada no mundo poderia significar mais para ela do que aquele homem e a criana que lhe dera. S de pensar na noite 
anterior, sentia seu corpo arder de desejo por Kadir. Mas agora esse desejo era a antecipao de um erotismo delicioso, e no mais significava dor e dvida. Esta 
noite, ela o abraaria e mostraria a ele...
      - Princesa, est na hora - a condessa anunciou, trazendo-a de volta de seu sonho ertico e gesticulando para que as damas de companhia segurassem a cauda do 
vestido de coroao de Natalia.
      
      Jamais houvera uma ocasio com tanta gente amontoada na praa e ao longo das ruas, fazendo fila a caminho da catedral, e Natalia podia ouvir a aclamao de 
encorajamento e prazer  medida que a antiga carruagem passava por eles.
      Ela poderia ser apenas uma observadora disso tudo, da entrega formal da coroa ao prncipe Kadir feita pelo rei Giorgio. Mas, depois, ela e Kadir renovariam 
seus votos diante do povo.
      A catedral estava lotada, a imponente torre se erguia diante do cu azul, as vozes do coral preenchiam o interior da nave.
      Mas ainda havia, tambm, aquele sentido de crena espiritual, a conscincia do tempo passado e dos votos renovados, Natalia reconheceu ao se juntar  procisso 
que adentrava a catedral.
 frente estava o rei Giorgio acompanhando Kadir, mas eles estavam muito distantes para que Natalia pudesse ver seus rostos, ainda que pudesse ver o manto 
oficial e a sombra de sua cabea.
      Hoje Kadir estava usando o presente especial que lhe dera, uma colnia feita por ela que combinava os ingredientes mais especiais e raros para exprimir seu 
profundo amor por ele e para agradecer pelo presente inestimvel que ele estava dando ao povo de Niroli ao se comprometer com eles.
      O rei e Kadir chegaram aos dois tronos que os aguardavam.
      Natalia se juntou aos outros membros mais prximos da famlia em seus assentos.
      O arcebispo de Niroli comeou a missa de dedicao. O tom das palavras solenes do ritual preenchia o ambiente; a honra e o respeito ao que estava acontecendo 
se refletiam nas expresses dos rostos das pessoas  medida que se despediam, de forma respeitosa, do rei que lhes havia servido por tanto tempo e acolhiam com respeito 
e confiana o filho que tomaria, com sua bno, o seu lugar.
      - Que voc possa ser abenoado com muitos anos para que venha a usufruir dos frutos do seu trabalho, rei Giorgio - o arcebispo rezou.
      - E, sem dvida, com muitos anos para interferir nas atividades desses frutos - Emily sussurrou para Natalia com profunda afeio.
      - Ele tem demonstrado muito cansao nos ltimos meses -- Natalia sussurrou.
      Elas ficaram em silncio quando o coral parou de cantar e o rei Giorgio se levantou do trono para colocar a coroa na cabea de Kadir.
      O silncio preencheu a catedral quando todos prenderam a respirao.
      As mos do velho rei tremiam visivelmente. As pessoas respiraram juntas quando o arcebispo comeou a orao de ordenao e, em seguida, perguntou a Kadir se 
ele aceitava a coroa de Niroli.
      Mal o consentimento final foi pronunciado, o rei Giorgio abraou Kadir e disse emocionado como se no conseguisse segurar as palavras:
      - Meu filho.
      Natalia imaginou que no era a nica que estava com os olhos cheios de lgrimas quando Kadir respondeu de forma igualmente emocionada:
      - Meu pai.
      Quando eles se abraaram, o murmrio de aprovao da multido ecoou pela catedral e pela cidade, com as pessoas saudando o novo futuro.
      
      - Eu no poderia fazer isso sem voc ao meu lado, Natalia.
      - Poderia, mas fico contente por ter sido escolhida para ficar ao seu lado, Kadir.
      Eles agora estavam de p no balco, protegidos dos animados festejos que ainda aconteciam na praa.
      - Voc poderia imaginar, na poca em que pisamos aqui pela primeira vez, que um dia estaramos dessa forma, juntos?
      - Nunca - Kadir admitiu -, mas eu tive que aprender muito. Aprendi com voc, que me ensinou muito bem.
      - O povo de Niroli j o ama.
      - Eu espero que sim, mas no podem me amar, nem de perto, o tanto que amo voc, e continuarei a am-la... Voc, nossos filhos, essa criana e as outras que 
vierem depois. Voc  minha vida, Natalia. - E voc, a minha, Kadir.
      
      FIM
      
      
      
      
Soberana Seduo                                                                                   Penny Jordan

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